O Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de João Monlevade aprovou, em reunião realizada na quinta-feira (13), a proposta de intervenção na Igreja Matriz de São José Operário, mas estabeleceu “recomendações condicionantes” para o prosseguimento do projeto. A decisão considera as orientações apresentadas pela consultoria técnica RM Cultural, de Belo Horizonte, que analisou a documentação encaminhada pela Fundação Casa de Cultura.
O parecer, elaborado pela arquiteta e urbanista Bruna Caldas Cordeiro, coordenadora da RM Cultural, foi emitido em 12 de agosto e tem caráter orientativo. A análise aponta que o material apresentado, com 240 páginas, ainda é um anteprojeto, e não um projeto executivo, por não conter todos os desenhos e detalhamentos técnicos necessários à execução das intervenções.
Com isso, a aprovação não significa que todas as alterações previstas estejam autorizadas para execução imediata. As recomendações condicionantes estabelecem que determinados pontos sejam detalhados, corrigidos ou submetidos novamente à apreciação do Conselho antes da realização das intervenções.
Projeto deverá refletir o que foi apresentado
Um dos principais pontos levantados durante a reunião foi a necessidade de adequar o conteúdo do anteprojeto às explicações apresentadas pelo responsável pela proposta. É o caso da mesa do altar. O documento apresentado previa a substituição da peça existente por uma nova mesa. Durante a reunião, porém, foi informado que a intenção é preservar a estrutura e substituir apenas as partes que estiverem danificadas, utilizando o mesmo material.
Diante da diferença entre o que consta no anteprojeto e o que foi apresentado verbalmente, o Conselho determinou que a proposta seja corrigida e que a solução efetivamente pretendida seja detalhada na documentação. A preocupação está relacionada também ao valor histórico e afetivo da peça, que integra o templo desde a década de 1960. A retirada completa da mesa poderia representar descaracterização e provocar impacto sobre a memória da comunidade.
Pedras da escadaria
Outro ponto discutido foi o piso externo da igreja, especialmente as pedras existentes na escadaria frontal. Durante a reunião, foi informado que a intenção é preservar as pedras e que a substituição por piso de concreto somente ocorreria caso seja tecnicamente impossível manter o material existente. A recomendação condicionante estabelece que essa informação seja incorporada ao projeto. Caso a retirada das pedras seja necessária, a impossibilidade de preservação deverá ser tecnicamente justificada. Além disso, o novo material a ser utilizado deverá ser apresentado previamente ao Conselho para avaliação e aprovação. A medida busca evitar que uma alteração que não esteja claramente prevista na documentação seja executada posteriormente sem nova análise do órgão de patrimônio.
Muro e gradil
A mesma situação ocorre em relação ao muro de delimitação do terreno da igreja e à instalação de gradil ou guardacorpo. O anteprojeto prevê a elevação do muro de alvenaria ou pedra, atualmente com cerca de 0,60 metro, para aproximadamente 1,20 metro, acompanhada de elementos metálicos. Durante a reunião, entretanto, foi esclarecido que o gradil não deverá ser instalado em toda a extensão do muro, mas apenas em determinados trechos.
O Conselho condicionou a continuidade da intervenção à apresentação de um projeto que indique precisamente quais trechos receberão o gradil ou guarda-corpo, permitindo a análise dos impactos visuais sobre o conjunto arquitetônico.
Projetos complementares
O parecer da RM Cultural também aponta a necessidade de complementação de projetos de drenagem, estrutura, instalações elétricas, segurança e monitoramento, incluindo cabeamento estruturado. Essas intervenções deverão ser compatibilizadas com o projeto de restauro e respeitar o princípio da reversibilidade, evitando, por exemplo, a abertura de rasgos em alvenarias históricas ou elementos decorativos. Entre as soluções sugeridas estão o uso de calhas técnicas ocultas e o aproveitamento de shafts e vazios existentes. Também deverão ser detalhados os materiais previstos para determinados ambientes, como o corredor interno, onde é indicado novo piso em ladrilho hidráulico ou granilite. A escolha definitiva deverá ser apresentada ao Conselho.
Elementos históricos
A igreja possui bens móveis e integrados considerados relevantes. Para esses elementos, a consultoria recomenda projeto específico, elaborado por profissional especializado, além de medidas de proteção, manuseio e guarda durante a obra. Também são recomendados cuidados com materiais e características originais do templo, como a reconstituição do forro de madeira da sacristia, quando possível, o uso de tinta mineral e testes laboratoriais para identificação do traço do reboco original. Nos portões principais, a orientação é manter, sempre que possível, o padrão existente, evitando intervenções capazes de descaracterizar o conjunto.
Documentação
Outro ponto registrado pela consultoria é que a documentação apresentada não contém a assinatura e o Registro de Responsabilidade Técnica (RRT) do profissional habilitado responsável pelo projeto de restauro. A recomendação é que o documento final seja devidamente assinado e acompanhado do respectivo RRT para arquivamento técnico na Fundação Casa de Cultura e no Conselho. O parecer ressalta que sua função é orientar a análise e que a decisão sobre a anuência cabe ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural.
Com a aprovação acompanhada das recomendações condicionantes, o processo avança para uma nova etapa de detalhamento. O projeto executivo ainda não foi apresentado e deverá incorporar as correções e informações discutidas durante a reunião, além dos complementos técnicos apontados pela consultoria.
A Matriz de São José Operário está interditada desde junho. Os recursos estimados para as intervenções são de aproximadamente R$2 milhões, previstos por meio da Plataforma Semente, iniciativa do Ministério Público de Minas Gerais. Como contrapartida, Prefeitura, Câmara Municipal e Fundo Municipal de Patrimônio Histórico já destinaram R$500 mil ao projeto.
Segundo a presidente do Conselho de Patrimônio e da Fundação Casa de Cultura, Nadja Lírio, o processo deverá avançar para a elaboração dos projetos executivos e dos estudos necessários, mantendo como premissa a preservação das características arquitetônicas da Matriz e dos elementos de importância histórica e afetiva para a comunidade. “A decisão permite o avanço do processo de conservação, mas mantém condicionantes para que as intervenções sejam detalhadas, justificadas e compatibilizadas com a preservação do patrimônio antes de sua execução, para que a igreja fique bonita, preservada e reaberta pra a comunidade”, explicou.


