O jornalismo brasileiro perdeu nesta terça-feira (22) um de seus mais importantes nomes. O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, ele deixa a esposa, Mary, os filhos Elisa e Mauro e dois netos.
Nascido em Além Paraíba, na Zona da Mata mineira, em 1931, Zuenir construiu uma trajetória de mais de seis décadas dedicada ao jornalismo, à literatura e à compreensão das transformações sociais e políticas do país. Na ABL, ocupava a cadeira nº 32, para a qual foi eleito em 2014, sucedendo o escritor paraibano Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015.
Trajetória
Sua trajetória profissional começou ainda jovem, quando ingressou na imprensa como arquivista da Tribuna da Imprensa. A partir daí, passou por alguns dos principais veículos de comunicação do país, entre eles Correio da Manhã, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também foi professor e, desde os anos 1990, manteve uma longa atuação como colunista de O Globo.
Mas foi nos livros-reportagem que Zuenir encontrou uma das formas mais duradouras de registrar o país. Em 1989, publicou 1968 – O Ano que Não Terminou, obra que se tornaria um clássico da não ficção brasileira. O livro revisitou um dos períodos mais turbulentos da história recente do país, reconstruindo os acontecimentos políticos e culturais daquele ano e acompanhando seus efeitos sobre uma geração.
A obra alcançou mais de 400 mil exemplares vendidos, segundo a Academia Brasileira de Letras, e posteriormente inspirou a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo. Em sua jornada, Zuenir procurou compreender pessoas, comportamentos e mudanças de época. o interesse pelo fato jornalístico acompanhado da preocupação em entender o contexto humano por trás dele, eram suas marcas registradas.
Anos depois, voltou ao tema em 1968 – O que Fizemos de Nós, publicado para investigar o que havia restado dos sonhos, comportamentos e transformações daquela geração.
Chico Mendes e a Amazônia
Outro momento decisivo de sua carreira aconteceu em 1989, quando Zuenir foi ao Acre investigar o assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, ocorrido em dezembro de 1988.
A série de reportagens O Acre de Chico Mendes, publicada no Jornal do Brasil, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. Anos depois, a experiência seria ampliada no livro Chico Mendes – Crime e Castigo.
A reportagem mostrou uma característica fundamental de seu jornalismo, feito in loco. Ele tinha a disposição para sair da redação e permanecer tempo suficiente no local para ouvir as pessoas e compreender uma realidade antes de escrever sobre ela.
Em entrevista à Biblioteca Pública do Paraná, Zuenir resumiu sua concepção de jornalismo ao dizer que os jornalistas não deveriam agir como juízes ou promotores, mas como “testemunhas de nosso tempo”.
A cidade partida
Em 1994, publicou Cidade Partida, resultado de uma longa imersão na realidade da violência urbana do Rio de Janeiro. Durante dez meses, Zuenir frequentou Vigário Geral, comunidade marcada pela chacina de 21 pessoas ocorrida em 1993, convivendo com moradores e procurando compreender as causas da violência e da desigualdade.
O livro recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem e tornou-se outra referência de sua produção jornalística. A experiência também estava relacionada à atuação de Zuenir junto ao Viva Rio, organização criada para desenvolver iniciativas de inclusão social e enfrentamento da violência na cidade.
Também escreveu Minhas Histórias dos Outros, Inveja – Mal Secreto, Crônicas de um Fim de Século, 70/80 – Cultura em Trânsito, este em parceria com Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari, além do romance Sagrada Família e de Conversa sobre o Tempo, escrito com Luis Fernando Verissimo. Sua obra atravessou diferentes períodos do Brasil sem abandonar uma mesma preocupação: olhar para o presente com a atenção de quem sabe que os acontecimentos, quando devidamente observados, também se transformam em memória.
Reconhecimentos
Além desses principais reconhecimentos do jornalismo brasileiro, Zuenir recebeu, em 2008, um troféu especial da Organização das Nações Unidas (ONU) por sua contribuição à defesa dos direitos humanos. Em 2010, foi escolhido “Jornalista do Ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.

