Há gestos que parecem pequenos para quem os oferece, mas que podem significar muito para quem os recebe. Um sorvete. Uma tarde de cinema. Um passeio no parque. Um curso que abre uma porta profissional. Ou simplesmente a atenção de um profissional disposto a colocar seu trabalho a serviço de alguém que precisa.

É com esse olhar que a Fundação Municipal Crê-Ser, de João Monlevade, retomou o programa de apadrinhamento de crianças e adolescentes acolhidos em sua Unidade de Acolhimento Institucional. A proposta vai além de uma ação pontual, mas de uma aproximação de meninos e meninas da comunidade monlevadense. A partir desse contato, a medida oferece experiências de convivência, lazer, afeto e desenvolvimento que, muitas vezes, a rotina institucional não consegue proporcionar sozinha.

O projeto, conforme a Fundação, estava parado havia algum tempo e foi retomado recentemente. Ele é voltado a crianças a partir dos seis anos e a adolescentes que vivem na unidade de acolhimento. A iniciativa não contempla aprendizes nem alunos das atividades extracurriculares dos núcleos da Fundação.

Para a assistente social Adriana Almeida, que acompanha o trabalho na unidade, a proposta nasce de necessidades muito concretas, vividas dia a dia pelos acolhidos. “Nosso objetivo com o projeto é fazer uma aproximação das nossas crianças que são acolhidas aqui com a comunidade”, explica.

A ideia é permitir que essas crianças tenham contato com outros ambientes, outras pessoas, outras experiências além dos muros da instituição. Em muitos casos, o retorno ao convívio com a família biológica não é uma possibilidade próxima, o que torna ainda mais importante criar espaços de convivência saudável e de preparação para a vida que virá depois do acolhimento. “As crianças já perguntam pelo apadrinhamento”, conta Adriana.
Segundo ela, os acolhidos aguardam com expectativa real a chance de ter um padrinho ou uma madrinha e de viverem momentos diferentes daqueles que compõem o cotidiano da unidade.

Ações que podem significar muito

Adriana informa que o programa prevê três modalidades, e o apadrinhamento afetivo talvez seja aquela em que a importância da convivência fica mais evidente. Não é preciso organizar nada grandioso. Um sorvete, uma sessão de cinema, uma caminhada, um passeio de fim de semana, pequenos programas que, para quem passa boa parte do tempo dentro de uma instituição, podem se tornar lembranças marcantes. “O apadrinhamento afetivo é essa necessidade mais afetiva, como o nome já diz, da criança. É levá-las para fazer um passeio, proporcionar um momento externo à instituição. É tomar um sorvete, ir ao cinema, promover um momento de lazer”, explica.

Preparar para o futuro

O apadrinhamento também pode ajudar numa etapa decisiva da vida dos adolescentes: a preparação para a autonomia, para o dia em que vão precisar caminhar com as próprias pernas fora da instituição.

Na modalidade de apadrinhamento provedor, pessoas físicas ou empresas podem custear cursos de capacitação e outras atividades voltadas ao desenvolvimento dos acolhidos. Ganha peso especial entre os adolescentes que se aproximam do momento de deixar a unidade. “São pessoas, empresas, pode ser pessoa jurídica, que têm interesse em pagar um curso para os nossos adolescentes, principalmente os que têm essa necessidade de capacitação, já pensando em promover a autonomia deles para uma provável saída da instituição”, explica Adriana.

Conforme a assistente social, não se trata de uma ajuda pontual e isolada. Um curso profissionalizante pode ser a ferramenta que faltava para que o adolescente desenvolva uma habilidade concreta e tenha, de fato, condições melhores de construir a própria trajetória quando o momento de sair chegar. O apoio pode se estender também a outras necessidades identificadas pela equipe técnica.

Quem tem um serviço também pode ajudar

Há ainda uma terceira possibilidade: o apadrinhamento por prestador de serviços. Aqui, profissionais e empresas podem oferecer seus conhecimentos e serviços de forma gratuita, em benefício direto das crianças e adolescentes. As possibilidades variam conforme as necessidades identificadas pela instituição.

Adriana cita exemplos simples, mas que fazem diferença real no cotidiano: “Pode ser um médico, um dentista, um cabeleireiro. Nós temos necessidades diversas para nossas crianças e adolescentes. Um atendimento médico, um cuidado odontológico, um corte de cabelo, coisas que, para muita gente, são rotina, mas que para os acolhidos podem representar cuidado e atenção que fazem falta”, afirma.

O cuidado vem antes do vínculo

Ainda que o afeto seja uma das bases do programa, a Fundação Crê-Ser faz questão de reforçar: o processo é conduzido com critérios rigorosos e acompanhamento técnico permanente. Para tanto, a aproximação não acontece de forma imediata nem espontânea. Ela é construída aos poucos, com orientação, avaliação e acompanhamento constante da equipe técnica sempre dentro das autorizações necessárias.

Quem pode participar

Podem participar adultos com mais de 25 anos que demonstrem disponibilidade, compromisso e interesse genuíno em contribuir com o desenvolvimento dos acolhidos. É preciso apresentar documento de identificação com foto, comprovante de residência atualizado, certidões negativas de antecedentes criminais federais e estaduais, preencher a ficha de inscrição e apresentar outros documentos que possam ser solicitados ao longo do processo. “Todo esse cuidado existe porque, nesse tipo de relação, o afeto precisa caminhar junto com a responsabilidade”, afirma Adriana.

A preocupação central é preservar a segurança emocional dos acolhidos e garantir que cada vínculo se construa de forma saudável, respeitando os limites e as particularidades de cada criança ou adolescente.

Não é adoção

Um ponto que a Fundação Crê-Ser faz questão de deixar claro: o apadrinhamento não gera guarda, não configura adoção e não substitui a família de origem. A iniciativa não interfere nos processos de reintegração familiar nem nos de inserção em família substituta.
O padrinho ou madrinha não assume o papel de pai ou mãe. O que se propõe é convivência, afeto, experiências e oportunidades de desenvolvimento — nada além disso, e nada menos que isso.

A psicóloga da Fundação Crê-Ser, Sâmara Arthuso, reforça esse aspecto. Segundo ela, os padrinhos não ingressam no programa com a intenção de adotar a criança ou o adolescente. “O apadrinhamento é totalmente voluntário e sempre visa o melhor interesse da criança”, afirma.

É uma distinção que importa. O programa não pretende substituir vínculos familiares, nem criar expectativas capazes de gerar novas rupturas — algo que essas crianças e adolescentes, muitas vezes, já enfrentaram mais de uma vez na vida. A proposta é construir algo possível, seguro e positivo, dentro da realidade concreta do acolhimento institucional.

Um Natal com mais presença

A retomada do programa já começa a ser pensada também para o Natal. A Fundação Crê-Ser pretende organizar o apadrinhamento de forma que os acolhidos possam viver as festas de fim de ano com mais carinho, atenção e momentos de convivência real. A expectativa não é apenas de presentes: é de presença. De alguém que escolha estar ali.
Porque, para uma criança ou adolescente acolhido, um passeio pode ser muito mais do que um passeio. Um curso pode ser uma porta para o futuro. E algumas horas de atenção podem virar uma lembrança que fica.

No fim, o programa fala de coisas simples: tempo, presença, oportunidade e cuidado. E é justamente essa simplicidade que faz do apadrinhamento algo tão significativo.

Como participar

O programa é uma iniciativa da Fundação Municipal Crê-Ser, em parceria com o Poder Judiciário, o Ministério Público e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de João Monlevade. Quem quiser conhecer o programa e iniciar o processo de inscrição pode ligar para (31) 3851-1558 ou procurar a sede da Fundação Crê-Ser, na Rua Palmas, 214, bairro Baú.