(*)José Geraldo Leite

Nasci na casa da minha avó, na Cidade Alta, em Monlevade e esse é o começo da minha história.

Nunca fui bom em bater um pênalti! Mas, até hoje, jogo futebol amador, atualmente, bem amistoso no Sesc Pompeia, em São Paulo, com pessoas de múltiplas idades e ambos os sexos. Venho aqui contar minha trajetória, que se inicia em Minas, lá na infância, onde “o mar não é o mar, o mar é o céu”.

O lugar onde nasci não existe mais, pois toda a Cidade Alta foi incorporada por uma indústria siderúrgica na época. As casas, o mercado, a escola, as ruas – tudo foi transferido para outro local; assim, digo que nasci em “Já Teve”. Outra curiosidade é que o padre que celebrou o casamento de minha mãe, em 1962, deixou de ser padre tempos depois.
Essas ironias do início da minha vida sempre voltam aos meus pensamentos.

Sou o mais velho de nove filhos, sendo quatro irmãs e quatro irmãos. Desses, dois faleceram na infância, algo trágico que entristece a todos nós até hoje. Minha mãe já passou dos oitenta e continua lúcida a maior parte do tempo, apesar da baixa visão. Meu pai já se foi. Após se aposentar em São Paulo como metalúrgico, ele ainda trabalhou um pouco mais, em diversas funções, até como entregador de jornal aos domingos. Nos anos 1990, voltou para Belo Horizonte, onde viveu até 2006.

Desde a infância, tive diversos momentos de mudança, seja com toda a família ou sozinho. Nasci fora de um hospital e uma parteira cuidou de tudo. Logo fomos morar no Acampamento dos Anjos, mas durou pouco, pois meu pai, operário da Companhia Belgo-Mineira, foi demitido após o golpe militar, depois de uma greve.

Fomos para a roça, em Alvinópolis, na casa de meu avô paterno. Durou pouco, mas lembro de andar num cesto, em um carro de boi que circulava pelos pastos. É outra lembrança não registrada, mas que sempre me volta.

Ainda na infância, fomos para a capital mineira. Meu pai foi trabalhar na siderúrgica, no Barreiro. A cidade, que até hoje parece uma panela onde se vê o pôr do sol de qualquer lugar, é muito linda por isso. Daí o nome Belo Horizonte.

Mas foi uma época difícil para toda a família. Apesar de ele ser metalúrgico e dobrador de ferro, o salário era pouco para tantas bocas. Além do pagamento do terreno onde estava construindo nossa casa, sobrava muito pouco.

Nossa casa ficava no fim de um morro, de onde a vista mostrava toda a serra ao redor, além de outros morros habitados ao longe. Era sempre possível ver o nascer e o pôr do sol de cada lado da casa. Um quadro se desenhava em minha mente quando o trem passava lá na serra, indo até o oceano, para levar as riquezas naturais das serras de Minas para o outro lado do mundo. Essa primeira parte fala muito do meu começo. Na próxima, conto sobre minha chegada a São Paulo.

(*) José Geraldo Leite Coura é monlevadense e advogado em São Paulo – OAB-SP 442394