Há mais de duas décadas exerço o jornalismo em João Monlevade. Desde 2014, estou à frente da editoria do Jornal A Notícia, veículo que há mais de 42 anos registra a história do município. Ao longo desse período, como jornalista, escritor, pesquisador da memória local e mestre em Letras, compreendi que os bens culturais podem ter proprietários, mas pertencem também à memória coletiva. E tudo aquilo que integra a identidade de uma cidade deve ser tratado com transparência, responsabilidade e informação.
Nos últimos dias, fui alvo de uma nota de repúdio do Projeto Vereda, Verdade e Vida após produzir uma reportagem sobre o início das obras de restauração da gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Recebo com respeito os esclarecimentos apresentados pela Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, que reafirmam a natureza privada do imóvel e sua responsabilidade pela condução do projeto. Ainda assim, não posso aceitar que o exercício do jornalismo seja confundido com invasão. Minha presença tinha um único propósito: informar a população sobre uma obra aguardada há anos.
A própria Diocese reconhece que a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes integra um imóvel privado, mas tradicionalmente acessível a fiéis e visitantes. Soma-se a isso um aspecto fundamental: a restauração recebeu cerca de R$500 mil em recursos públicos municipais e integra um projeto aprovado pelo Ministério Público, com investimentos próximos de R$2 milhões. Quando há patrimônio de interesse coletivo e recursos públicos envolvidos, acompanhar sua execução não é apenas um direito da imprensa; é um dever em nome da sociedade.
Poucos veículos acompanharam essa história tão de perto quanto o Jornal A Notícia. Desde 2020, tenho pautado e publicado reportagens alertando para os riscos estruturais da igreja. A reportagem do jornal já esteve várias vezes in loco, dei voz ao pároco sobre a necessidade da obra, noticiei vistorias e projetos, sempre defendendo a preservação desse importante patrimônio. Nunca fui contra a restauração, é claro. Ao contrário, como jornalista, escritor e pesquisador da memória local, desejo sinceramente que ela seja concluída com sucesso.
Por isso preocupa a forma como a comunicação do projeto vem sendo conduzida. Em outra oportunidade, neste ano, uma reportagem do jornal, baseada em informações fornecidas pelo próprio poder público, foi classificada como “fake news”. Agora, o perfil oficial do projeto orienta a população a confiar apenas nas informações divulgadas naquele canal, afirmando que outras fontes não representam a iniciativa.
Todo projeto tem o direito de possuir canais oficiais de comunicação. O que não fortalece a transparência é desestimular a busca por outras fontes ou descredibilizar previamente o trabalho da imprensa. Em uma democracia, comunicação institucional e jornalismo independente exercem papéis distintos e complementares. Um apresenta a posição oficial; o outro apura, confronta informações, ouve diferentes versões e informa com independência.
Também acompanho com atenção as intervenções previstas para a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Independentemente da natureza jurídica do imóvel, trata-se de um patrimônio que faz parte da memória afetiva de João Monlevade há quase oito décadas. Mudanças em um bem dessa relevância precisam ser amplamente divulgadas, debatidas e compreendidas pela comunidade, antes de serem executadas.
Por fim, afirmo que a imprensa existe para registrar a história, acompanhar a correta aplicação dos recursos públicos e fazer as perguntas que o interesse público exige. Isso não é criar obstáculos, mas um direito e prerrogativa do jornalista e, portanto, também é um direito de toda a sociedade.
A igreja precisa ser restaurada, a gruta precisa ser preservada e a memória precisa ser valorizada. Fato. Mas o respeito à imprensa também precisa ser restaurado. Porque uma sociedade que preserva seu patrimônio histórico também precisa preservar a liberdade de imprensa. Sem ela, não há transparência plena, controle social, nem confiança. Nenhum canal oficial substitui o papel do jornalismo independente. A história de João Monlevade merece ser preservada em seus monumentos e no compromisso permanente com o direito de informar e de ser informado.
(*) Erivelton Braz é graduado e mestre em Letras, com pesquisa em Teoria Literária e Crítica da Cultura, e editor do jornal A Notícia



