(*) Marcos Martino
Dia desses cheguei a uma conclusão: sabem o que acontece? Brilho demais cega, satura. Se você brilhar demais pode ofuscar outras estrelas, que podem invejar seu brilho e se rebelar. Essa semana postei uma frase e a IA me ajudou a ilustrar. A frase foi a seguinte: “Brilhe intensamente, mas me deixe colocar meus óculos escuros. Não para ofuscar seu brilho. Mas para proteger meus olhos”.
Sabe aquelas frases que o inconsciente cospe, como se fosse erupção, espasmo? Sei lá, as frases pulam pra fora, que nem pipoca. Na hora a gente fica tentando interpretar o sentido. Frase enigmática, cheia de sentidos?
Meu amigo e editor do A Notícia, Erivelton Braz, me perguntou se era recado para alguém. Mas não! Não teve essa intenção. Talvez algo que mora dentro, me dando um toque. Tudo é metáfora, meus amigos. Os óculos escuros são uma metáfora. Proteção contra egos exuberantes, da extrema autoestima.
Lembrei de um caso que aconteceu comigo um tempo atrás. Viajava de ônibus, uma turma de jovens. Todos falando alto, os jovens são exibidos e narcisistas. Quer dizer, alguns. Pois bem, de repente uma das meninas mais jovens começou a falar de música. Falava com brilho nos olhos e os colegas também entusiasmados. Mas percebi que ela falava algumas bobagens. Resolvi corrigi-la. Fiz uma vez e ela assentiu, disse que realmente eu tinha razão. Mas deu de ombros e continuou falando. Mas ela falou mais uma besteira e corrigi de novo. Dessa vez ela ficou séria e parou de falar. O resto da turma também murchou e se fecharam em suas individualidades.
Eu fiquei ali com cara de tacho, dei uma de sabichão, quis me exibir e acabei com o entusiasmo daquela turma. Que chato eu fui! Passei o resto da viagem filosofando internamente, me culpando pela chatice, pelo ego professoral, pelo brilho de ouro de tolo.
Mas foi uma lição. Nunca mais repeti tal erro. As vezes precisamos apagar nossas luzes para que outros possam brilhar. Lembrei aqui de uma letra do Cazuza. “Minha flor, meu bebê”. Ele fala na letra: “me fingir de burro, pra você sobressair”. Os poetas sabem tudo.
Tem algo que não citei que é a inveja. Quem brilha vira alvo. Fiquei imaginando o tanto que os vaga-lumes devem ser invejados no mundo dos insetos. Brilho demais cega e pode ser inconveniente.
Lembrei de outra coisa correlata. Quando fazemos aniversário, na passagem do ano, muitos desejam luz em nossas vidas. Mas, na hora de dormir, é melhor apagá-la. Afinal, tem tanta coisa boa que a gente faz no escurinho.
(*) Marcos Martino é alvinopolense, ativista cultural e compositor



