(*) Gláucio Antônio Santos

Dinâmicas são sempre interessantes para dialogar com um determinado grupo ou deixá-lo se expressar diante de alguma provocação temática. Bem conhecemos algumas dessas experiências em processos formativos na educação ou na seleção de candidatos para o mercado de trabalho.

Reconheço que é um grande clichê pedir a um grupo de profissionais para fechar os olhos e imaginar determinado objeto. Mesmo assim, em um recente processo formativo, recorri a essa técnica, e deu certo!

Quem sabe você não aceita participar comigo agora? Já vou avisando: nosso ponto de partida é a educação formal, mais precisamente a educação infantil. Feche os olhos por um instante, em um ambiente tranquilo, e imagine uma criança. Não darei nenhuma pista. Quero que traga à mente a representação de criança que você carrega consigo, seja da sua própria infância, do seu cotidiano em casa ou do trabalho.

Quando fiz essa proposição com meus colegas professores, tínhamos em tela uma reflexão sobre o conceito de criança apresentado pelas DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil), que a define como um sujeito histórico e de direitos que constrói sua identidade através das interações.

Diante daquela ciranda, questionei: quantas de vocês, ao pensar em uma criança, pensaram naquela que usa cadeira de rodas, ou que é cega ou surda? E nas crianças com atraso no desenvolvimento psicomotor ou Transtorno do Espectro Autista? Quantos de nós pensamos nas crianças negras e indígenas? Ou naquelas vítimas de violências? De forma geral, o que ouvi foi o silêncio.

Uma das justificativas para isso é que todos nós trazemos uma construção social e, sobre ela, planejamos nossas propostas pedagógicas. Em muitas reflexões, esse público citado não é o ponto de partida do planejamento, mas a reserva que fica para uma adaptação posterior, apenas para contemplá-lo sem garantir acessibilidade.

Poucos de nós pensamos primeiro na criança com deficiência ou em qualquer outro público que fuja ao padrão. Em outro sentido, poderíamos elaborar uma proposta pensando nas diferenças e em como esse olhar inclusivo alcançaria e enriqueceria as vivências de todas as crianças.

Tendo a legislação educacional como recorte, todas (bebês, bem pequenas e crianças pequenas) têm direitos. Isso é inegável. Mas, neste contexto da educação infantil, sob qual representação de criança estamos construindo nossas intenções pedagógicas quando pensamos nos Direitos de Aprendizagens? Aquela criança que corre de um lado para o outro? A criança branca? Aquela de olhos claros? A que tem alimento à mesa? Aquela que frequenta shoppings e sempre viaja nas férias?

Em todos os casos, oferecemos com a mesma qualidade o afeto e o colo? O colo pedagógico é democrático ou específico para um público? O cabelo afro é cuidadosamente tocado e elogiado como os outros? Ou essas crianças estão privadas de afeto, acolhimento e elogio?

Deixo aqui algumas perguntas para nós, educadores, pensarmos juntos e avaliarmos em qual sentido estamos caminhando com os nossos planejamentos. É hora de repensar nossas práticas para garantir os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento destes sujeitos sócio-históricos que constroem sua identidade, imaginam, questionam, têm cultura e produzem cultura.

(*) Gláucio Antônio Santos é professor da Educação Básica, pedagogo e jornalista. Mestre em Educação. Integrante do NEABI – Núcleo de Estudos Afro-brasileiro e Indígena da Universidade Federal de Ouro Preto e da AMAD – Associação de Afrodescendentes de João Monlevade