Para quem nasce sem heranças ou privilégios materiais, a educação não é apenas uma escolha acadêmica; é o portal da emancipação e da independência. Minha trajetória foi construída nessa travessia: da simplicidade das calçadas ao conhecimento que me permitiu formular políticas públicas, participar da gestão do desenvolvimento econômico de João Monlevade e chegar a arenas internacionais de decisão e construção da governança global na era da inteligência artificial. Essa experiência inspirou minha atual pesquisa, Reverse Public Governance, com publicação prevista para 2027, voltada a devolver dignidade e agência analítica ao servidor público diante do avanço de sistemas impessoais.
É com esse duplo olhar — de quem conhece a dureza da escassez e o peso de segurar a caneta do Estado — que percebo a exaustão de quem caminha pelas ruas. A poucos dias de mais uma eleição, o que se ouve não é entusiasmo pelo debate de ideias, mas um esgotamento silencioso. O desgaste acumulado alimenta a apatia resumida na frase de que todos os políticos são iguais. Esse sentimento não nasce necessariamente da ignorância cívica, mas de uma percepção dolorosamente concreta sobre nossa governabilidade.
O paradoxo é cruel: para garantir sustentabilidade política, o Executivo não enfrenta apenas um Legislativo fragmentado; precisa, muitas vezes, reproduzir essa fragmentação dentro da própria estrutura de poder. O primeiro escalão transforma-se em uma operação de engenharia burocrática na qual é preciso acomodar partidos, interesses e agendas contraditórias. Em administrações locais, de estrutura mais enxuta, esse arranjo pode converter secretarias estratégicas em pequenos feudos políticos. Pastas públicas passam a servir a projetos individuais e ambições de grupos de ocasião, rompendo a coerência do planejamento e pulverizando recursos.
Quando forças políticas que ontem se enfrentavam nos palanques acomodam-se pacificamente no primeiro escalão em nome da partilha do poder, o cidadão experimenta uma espécie de orfandade cívica. O debate de ideias parece, então, um simulacro temporário para capturar paixões eleitorais, enquanto a eleição corre o risco de se transformar em mero ritual de passagem.
Mas 2026 não pode ser um ano de paralisia. Enfrentamos urgências que não admitem retrocesso: transição energética, crise climática, disputa geopolítica por recursos estratégicos, terras raras, soberania tecnológica e investimentos em ciência e pesquisa. Flertar com o negacionismo científico ou com o desmonte ambiental significa comprometer o futuro. O desenvolvimento local e nacional precisa estar ligado à preservação da vida e à soberania tecnológica.
Para romper o ciclo de desilusão, é preciso recuperar a política como planejamento e compromisso ético. Leonardo Boff nos oferece uma chave importante ao falar da Ética do Cuidado. Cuidar não é apenas prestar atenção ao outro; é assumir responsabilidade por ele e pelo território que compartilhamos.
Na vida pública, isso significa defender metas sociais, transparência, contratos de gestão e a proteção técnica das secretarias e do orçamento contra o varejo das acomodações políticas. Expor as fraturas de nossa engenharia de poder não deve alimentar o cinismo, mas provocar responsabilidade.
O voto não precisa ser resignação diante do “menos pior”. Pode ser instrumento de cobrança, limite e compromisso. A política só recuperará sua legitimidade quando abandonar a vaidade dos gabinetes e a simples partilha de cargos para assumir sua vocação mais nobre: proteger os vulneráveis, defender o conhecimento e cuidar do território comum onde construímos, com coragem e responsabilidade, o futuro das próximas gerações
(*) Thiago Henrique dos Santos é monlevadense, economista em formação, bacharel em Políticas Públicas, ex-secretário municipal, autor de livros sobre governança e pesquisador em soberania tecnológica


