(*) Erivelton Braz
Nessas eleições, vote em você. Antes de escolher um candidato, escolha aquilo que você deseja para a própria vida. Pense na sua família, nos seus hábitos, na cidade onde mora, na região onde constrói sua história e no país que pretende deixar para os filhos e netos. O voto é individual, mas suas consequências quase nunca são.
Parto de uma reflexão recente do jornalista Leonardo Sakamoto, publicada em sua coluna no UOL. Ele lembra que é possível ser contra o presidente Milei e continuar amando Buenos Aires; criticar Netanyahu e conviver com a cultura judaica; condenar o terrorismo do Hamas e defender o direito do povo palestino a um país; rejeitar as ideias de Trump e torcer por times da NBA; detestar Putin e admirar a Literatura russa. São exemplos que parecem óbvios, mas que se tornam difíceis quando a política transforma tudo em torcida.
Afinal, governos não são seus povos e nenhum país pode ser compreendido apenas pelo rosto de quem ocupa o governo. É preciso aprender novamente a lidar com as diferenças. Sartre escreveu que “o inferno são os outros”. Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja justamente essa. A diferença, que deveria ser parte natural da vida democrática, passou a ser tratada como ameaça.
É assim que a polarização fabrica extremistas, radicais e pessoas que, em algum momento, perdem a noção dos limites. Primeiro, o adversário vira inimigo. Depois, inimigo vira ameaça. E, quando isso acontece, qualquer absurdo pode encontrar uma justificativa.
Também por isso precisamos recuperar o significado de palavras que foram banalizadas. Direita e esquerda, por exemplo, são conceitos políticos complexos, com origens históricas e diferentes interpretações ao longo do tempo. Hoje, muitas vezes, são utilizados apenas para rotular e desqualificar.
De maneira simplificada, a direita costuma dar maior importância à liberdade econômica, à propriedade privada, à iniciativa individual, à ordem e à responsabilidade pessoal. A esquerda tende a enfatizar a redução das desigualdades, a proteção social, os direitos trabalhistas e uma presença maior do Estado na garantia de oportunidades. Mas a vida real é muito mais sofisticada que essa divisão.
A China é um país de esquerda e “comunista”. É possível questionar seu regime político mas, ao mesmo tempo, reconhecer a impressionante capacidade de planejamento, infraestrutura e inovação. A BYD está aí para comprovar. Assim como podemos criticar determinados aspectos da sociedade americana, historicamente de direita e reconhecer em Nova York uma das experiências urbanas e culturais mais fascinantes do mundo.
O mundo não cabe nas etiquetas que usamos para discutir política no WhatsApp. E é justamente o mundo real que deveria nos interessar. Vamos olhar para o Brasil, Minas e nossas cidades. Precisamos de educação, saúde, segurança, saneamento, cultura, emprego, infraestrutura, tecnologia, mobilidade e oportunidades. Precisamos, sobretudo, de representantes que conheçam essa realidade e tenham compromisso com ela.
Por isso, nesta eleição, talvez seja mais importante perguntar: “o que eu quero?”. Em vez de: “quem vou apoiar?”. Depois de responder a essas perguntas, procure os candidatos que mais se aproximam dessas respostas. Conheça suas histórias. Observe suas propostas. Examine seus compromissos. Não escolha apenas pelo discurso mais barulhento ou pelo inimigo que alguém mandou você odiar.
Lembre-se de que o voto não é uma homenagem ao candidato. É uma escolha sobre a vida que queremos construir. E, quando a urna fechar, quem continuará vivendo com as consequências da escolha não será o candidato. Seremos nós. Por isso, em 2026, vote em você!
(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação


