(*) Erivelton Braz
Há anos, o historiador e professor Luiz Antônio Simas insiste, com lucidez e rigor, que o Carnaval não é apenas uma festa, mas um campo de disputa simbólica. Quando afirma que, “num mundo cada vez mais individualista, o Carnaval assusta”, ele nos oferece uma chave fundamental de leitura do tempo presente. A festa afronta, segundo o professor, a decadência da vida em grupo e reaviva laços comunitários. Com isso, Simas aponta para algo que vai além da folia. Trata-se de uma pedagogia do encontro, onde o corpo coletivo reaprende a existir em conjunto, em oposição ao isolamento dos tempos atuais. Sobretudo, na solitária vida atrás das telas e redes sociais.
Em outro texto, quando Simas ironiza a ideia de que a festa seria “coisa de desocupados”, ele convoca o leitor a olhar para quem sustenta o Carnaval. Já viu quanta gente trabalha para a festa acontecer? O historiador lembra, com precisão política, das trabalhadoras e trabalhadores da folia, costureiras, ritmistas, músicos, cozinheiras, artesãos, para quem o Carnaval é trabalho duro e economia viva. Para ele, não há improviso ingênuo onde existe organização popular.
Simas também chama atenção para o fato de que, para muitos sujeitos historicamente empurrados para a margem, tratados como “sobra vivente”, o Carnaval é alternativa concreta de sobrevivência material, afetiva e espiritual. Essa afirmação desmonta qualquer leitura moralista da festa e a recoloca no lugar de política cotidiana da vida. Carnaval é energia pulsante e de celebração, mesmo que digam não.
Em outros textos, ao analisar as escolas de samba, uma de suas paixões, Simas lembra que elas surgem como instituições comunitárias das populações negras, periféricas, espaços onde se elaboram sentidos de mundo, memória e pertencimento. Mesmo atravessadas por dilemas contemporâneos, as escolas seguem sendo territórios orgânicos de produção cultural e resistência simbólica. “Atacá-las é atacar formas populares de pensar o Brasil fora da lógica da exclusão”, acerta o professor.
Em defesa da festa popular, o pensador denuncia que o Carnaval está sob ataque há muito tempo. Segundo ele, os “higienistas da casa grande desejam eliminá-lo, os agentes do mercado buscam gentrificá-lo e os mercadores da fé tentam aprisioná-lo ao imaginário do pecado”. É um cerco contínuo à festa como experiência de liberdade coletiva.
Do ponto de vista histórico, o professor afirma que o Brasil não inventou o Carnaval, mas foi o Carnaval quem “inventou um país possível e original”. Também de forma correta, o autor desloca o debate para o campo da imaginação política. A festa, vivida na pluralidade de suas formas, cores e ritmos, construiu um Brasil à margem do projeto histórico de exclusão e violência contra escravizados e povos originários, que nos constituiu enquanto nação.
Por isso, como observa Simas, é perturbador para um Brasil individualista, raivoso e intolerante, lidar com uma festa “coletiva, inclusiva, alegre, diversa e rueira”. O Carnaval se contrapõe a um país que prefere o silêncio da ordem ao barulho da vida.
Concordo com o professor Antônio Simas porque o Carnaval é necessário para o mundo evoluir, resistir e avançar. Sobretudo no Brasil, esse país de imensas contradições. E, justamente, Simas nos lembra que não há futuro possível sem o reconhecimento da diferença, sem o direito à alegria e aos encontros com a energia da vida. “Tenso e intenso como lâmina e flor”, como afirma Simas, o Carnaval assusta porque nos coloca diante do assombro da vida. E talvez seja exatamente isso que o torne tão indispensável. Por isso, coloque seu bloco na rua e viva a explosão da cultura popular. Feliz Carnaval!
(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação

