A audiência pública realizada pela Câmara Municipal de João Monlevade para discutir os problemas do transporte coletivo revelou um ponto que vai além das reclamações sobre atrasos, superlotação e mudanças de itinerários: a responsabilidade pela definição dos horários dos ônibus está nas mãos do município, e não da empresa concessionária.

A informação foi reforçada durante a reunião pelo gerente de tráfego da Enscon, Alex Jordane, e pelo diretor da empresa, Eduardo Lara. Segundo eles, cabe ao Settran estabelecer os horários e parâmetros da operação. À concessionária, conforme explicaram, compete cumprir o que foi determinado pelo município.

“Eu não faço horário de ônibus, eu cumpro horário de ônibus”, afirmou Alex, ao ser questionado sobre alterações e problemas registrados pelos usuários.

A declaração ajuda a explicar uma das principais contradições expostas durante a audiência: enquanto a população cobra da Enscon mudanças nos horários e na operação, a própria concessionária afirma não ter autonomia para criar ou retirar viagens.

O Settran, por sua vez, reconheceu que existem problemas no sistema. O representante do órgão, José Eustáquio de Campos, que trabalha há 38 anos no setor, classificou a situação da linha 12 como um problema crônico, resultado de sucessivas extensões do itinerário. “A linha 12 é uma linha prioridade para nós estarmos trabalhando o mais breve possível”, afirmou.

Quem muda o horário?

A questão sobre quem efetivamente pode alterar a oferta de ônibus ganhou importância diante dos relatos dos usuários. Durante a audiência, moradores citaram mudanças de horários que teriam provocado dificuldades para estudantes, trabalhadores e moradores de bairros mais afastados.

Um dos casos apresentados foi o de uma estudante do bairro Planalto, que relatou chegar em casa próximo da meia-noite devido à falta de horários compatíveis com o término das aulas.

No Jacuí, John Jefferson relatou que a filha passou a permanecer por cerca de duas horas e meia em um ponto de ônibus após uma mudança no horário da linha 12. Outros moradores reclamaram de alterações de itinerários sem comunicação adequada e da necessidade de percorrer longas distâncias para chegar aos pontos.

A Enscon informou que os horários são definidos pelo Settran de acordo com os parâmetros estabelecidos no contrato de concessão. A empresa também afirmou que os ajustes levam em consideração a demanda de passageiros e as condições de circulação.

Prefeitura promete resposta

Diante das cobranças, o procurador jurídico da Prefeitura, Hugo Lázaro, informou que o município registrou as demandas apresentadas durante a audiência e deverá discutir as medidas com o setor responsável e cobrar providências da concessionária.

Entre os trechos e linhas citados como problemáticos estão as linhas 12, 30, 52, 154 e 43, além dos impactos provocados pelos horários de entrada e saída da ArcelorMittal.

Hugo também informou que a Prefeitura pretende apresentar um retorno aos questionamentos dentro de 10 a 15 dias.

Outro fator apontado para os problemas foi o trânsito provocado pelas obras na região da BR-381 e do Cruzeiro Celeste. A Enscon reconheceu atrasos, especialmente na linha que sai às 17h25 de Pacas em direção ao Jacuí.

O problema pode ser maior que a Enscon

A audiência também trouxe à tona uma questão estrutural: o transporte coletivo de João Monlevade precisa acompanhar o crescimento da cidade.

Para o procurador, o município vem se consolidando como um centro econômico, social e universitário da região, aumentando a circulação de pessoas e pressionando a estrutura existente. Ele classificou os problemas atuais como parte das “dores do crescimento”.

A discussão, portanto, não se resume à qualidade do serviço prestado pela concessionária. Ela coloca em evidência a necessidade de o município rever o planejamento das linhas, horários e itinerários diante de uma cidade que mudou desde a definição do atual sistema.

Usuários pedem fiscalização

A população também apresentou reclamações sobre superlotação, atrasos, acessibilidade e segurança. Houve relatos de passageiros que precisam se apertar dentro dos veículos para conseguir embarcar e de problemas com elevadores destinados a cadeirantes.

O debate levou vereadores a sugerirem mecanismos permanentes de acompanhamento do contrato de concessão. Alysson Barcelos (Avante) propôs a criação de uma comissão para monitorar indicadores como pontualidade, cumprimento de viagens, falhas dos veículos, reclamações e segurança.

Sinval Dias (PL) defendeu o reforço da fiscalização, com registro sistemático dos atrasos e demais ocorrências. Outros vereadores defenderam consultas públicas periódicas, revisão dos horários, reforço das linhas nos períodos de maior demanda e até a utilização de micro-ônibus em determinados horários e regiões.

Quatro horas de cobranças

Realizada na quinta-feira (3), a audiência durou cerca de quatro horas e teve o plenário lotado. Participaram usuários, representantes da Enscon, Settran, Prefeitura, Secretaria Municipal de Educação e vereadores.

O autor do requerimento, vereador Revetrie Teixeira (MDB), resumiu o propósito do encontro ao defender que a discussão não deveria terminar na identificação de culpados, mas resultar em soluções.

“Não estamos para apontar culpados ou vítimas. Estamos para apontar qual será a solução”, afirmou.

Agora, a expectativa é pelo retorno prometido pela Prefeitura e pelos encaminhamentos que serão adotados para as linhas apontadas como mais problemáticas.