A suspensão da coleta seletiva em João Monlevade continua repercutindo e trouxe à tona um problema que vai além da interrupção do serviço: a falta de mão de obra e a dificuldade da Associação dos Trabalhadores em Limpeza e Materiais Recicláveis de João Monlevade (Atlimarjom) para processar o volume de materiais recolhidos na cidade.

O assunto foi levado à Câmara Municipal na quarta-feira (2) pela presidente da entidade, Valdete Roza. Na Tribuna, ela explicou que a coleta seletiva alcançou ampla adesão da população, mas o crescimento do volume de recicláveis não foi acompanhado pelo número de trabalhadores responsáveis pela triagem.

Segundo Valdete, a situação chegou a um ponto crítico. A associação estaria trabalhando mais de 12 horas por dia e, mesmo assim, não consegue processar todo o material que chega à sede, no bairro Baú. O espaço, segundo ela, foi planejado para receber, separar e encaminhar os resíduos, e não para funcionar como depósito. “A coleta seletiva deu certo demais”, afirmou a presidente, ao destacar a participação dos moradores. O problema, segundo ela, é que há muito material e poucas pessoas para fazer a triagem.

Trabalho acumulado

Valdete relatou que a Atlimarjom chegou a contar com cerca de 35 trabalhadores, mas o número caiu gradativamente. Com menos associados, o material passou a se acumular.
Ela explicou que a dinâmica da associação acaba criando um efeito cascata: quando a equipe deixa de processar determinada quantidade em um dia, o volume é somado ao trabalho do dia seguinte. Com a redução do quadro de trabalhadores, o estoque aumentou até atingir a situação atual.

Outro obstáculo apontado é a dificuldade de atrair novos associados. Segundo Valdete, muitos interessados em trabalhar na entidade têm dúvidas sobre quanto poderão receber, já que a remuneração está relacionada à produção. Ela avalia que existe uma expectativa diferente por parte de trabalhadores acostumados ao modelo industrial, com salário fixo e benefícios.

Repasse da Prefeitura

A presidente também questionou o modelo de remuneração do serviço prestado pela associação ao município. Segundo ela, o pagamento feito pela Prefeitura considera a coleta dos resíduos, mas não contempla de forma suficiente todas as etapas posteriores.
“A Prefeitura paga a gente para coletar o resíduo. Coletar! Então, ela paga por quilômetro rodado. Ela não paga para coletar, triar e destinar”, afirmou.

Valdete destacou ainda despesas como equipamentos de proteção individual (EPIs), telefone, internet e energia elétrica. Segundo ela, a entidade já procurou o Executivo em diferentes oportunidades em busca de alternativas e apoio financeiro para enfrentar a dificuldade.

Presidiários

Após o anúncio da suspensão da coleta, uma das sugestões que ganhou força nas redes sociais foi a utilização de mão de obra de detentos. Valdete, porém, afirmou que a experiência já foi tentada pela associação, por meio de convênio com o sistema prisional, mas não apresentou resultados satisfatórios.

Pedido à Câmara

Diante do cenário, Valdete pediu apoio dos vereadores para encontrar uma solução que permita retomar a coleta seletiva e, ao mesmo tempo, garantir condições para que a Atlimarjom consiga processar o material recolhido.

A expectativa apresentada por ela é que a associação consiga recompor a equipe em menos de quatro meses, mas, para isso, seria necessário um aporte financeiro capaz de tornar o trabalho mais atrativo aos interessados.

Além do impacto direto para os moradores, a paralisação coloca em evidência a importância da estrutura de reciclagem para o município. Valdete defendeu a continuidade do serviço como uma ação de proteção ambiental e alertou para os impactos do descarte inadequado dos resíduos.

A suspensão, portanto, expõe um desafio que precisa ser enfrentado conjuntamente pelo poder público, pela associação e pela população: a coleta seletiva conquistou os moradores, mas agora precisa de estrutura e trabalhadores para que todo o material separado nas casas possa efetivamente ser reciclado.

Pró-catadores

Justamente nesse momento de paralização do serviço, João Monlevade recebe o Programa Sebrae PróCatadores, desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Governo Federal. A iniciativa busca fortalecer a Atlimarjom, melhorar a gestão, a estrutura e as condições de trabalho dos catadores. Nos primeiros encontros, realizados na Acimon, foram identificados gargalos como sobrecarga dos serviços, dificuldades na triagem e pesagem e baixa adesão da população à separação correta dos resíduos. O projeto terá duração de 12 meses, com diagnóstico, consultorias e acompanhamento técnico. Também estão previstas ações de educação ambiental em escolas, rádios, redes sociais e comunidades para melhorar a prestação do serviço.

Vereadores lamentam situação e cobram soluções

Após a fala de Valdete Roza, os vereadores manifestaram apoio à entidade. Eles destacaram a importância do serviço e cobraram medidas do Executivo para evitar que a paralisação se prolongue.

O presidente da Câmara, Fernando Linhares (Podemos), sugeriu a antecipação da devolução de recursos do Legislativo ao Executivo e a indicação de parte para a Atlimarjom. “Quero combinar com os vereadores de nós fazermos a devolução antecipada e que nós todos façamos uma indicação desse valor para que seja revertido para associação”, afirmou.

Belmar Diniz (PT) defendeu uma série de medidas, entre elas a busca por um novo espaço para a associação, a possibilidade de uma terceirização temporária para auxiliar na organização do serviço e a criação de um auxílio aos trabalhadores. O vereador também afirmou que pretende apresentar uma emenda à Lei Orçamentária Anual (LOA) para ampliar o repasse à entidade.

A necessidade de uma área adequada também foi destacada por Sassá Misericórdia (Cidadania), que fez um apelo à ArcelorMittal para que avalie a cessão de um espaço para recebimento e armazenamento dos materiais recicláveis. Revetrie Teixeira (MDB) afirmou conhecer as dificuldades enfrentadas por trabalhadores desse modelo e defendeu a criação de incentivos para a categoria.

Os riscos enfrentados pelos trabalhadores também foram lembrados por Leles Pontes (Republicanos). Ele chamou atenção para o fato de materiais estarem sendo colocados na calçada em frente à associação, avançando sobre a via e aumentando o risco de acidentes. Carlinhos Bicalho (PP) lembrou que já apresentou indicação para a criação de um novo espaço para a Atlimarjom com melhores condições de armazenamento e valorização dos trabalhadores.

A suspensão do serviço também foi classificada como preocupante por Alysson Barcelos (Avante), que pediu providências da Prefeitura. “É um serviço essencial e nós, monlevadenses, não podemos ficar sem esse serviço”, afirmou.

A líder do governo na Câmara, Maria do Sagrado (PT), avaliou que o problema da mão de obra precisa ser considerado na relação entre a associação e o município. Ela lembrou que a Prefeitura repassa atualmente cerca de R$50 mil mensais pela coleta e defendeu que sejam estudadas alternativas para tornar o trabalho mais atrativo aos trabalhadores.

Zuza Veloso (Avante), por sua vez, sugeriu a realização de concurso público como alternativa para garantir mão de obra estável para o serviço. Vanderlei Miranda (Podemos) criticou a postura do Executivo diante do anúncio da suspensão. Segundo ele, o município deveria ter buscado alternativas antes de aceitar a paralisação.

Thiago Titó (MDB) reforçou a necessidade de discutir o repasse à associação. “Se a Prefeitura já repassa R$50 mil por mês para a Atlimarjom e não está sendo suficiente, tem que estudar o melhor caminho para resolver uma situação”, afirmou. Por fim, Bruno Cabeção (Avante) destacou a contribuição da Atlimarjom para a preservação ambiental e manifestou apoio à retomada do serviço.