As reclamações sobre atrasos e lotação fazem parte da rotina dos usuários do transporte coletivo em João Monlevade. Em entrevista ao A Notícia, o diretor da Enscon, Eduardo Lara, respondeu aos principais questionamentos sobre a operação do sistema, mas direcionou o foco para outro problema. Segundo ele, a maior dificuldade enfrentada pela empresa não é a quantidade de ônibus, e sim problemas na mobilidade urbana.
Confira a entrevista:
A Enscon reconhece que há problemas recorrentes de atrasos e superlotação em algumas linhas? Quais são hoje os principais desafios da empresa?
O maior problema é a estrutura viária da cidade. Temos ruas estreitas, estacionamento sem fiscalização ou qualquer tipo de regra. O maior exemplo é a chegada ao Supermercado Fraga e à rua Nova York. É um caos completo. A avenida Wilson Alvarenga, no sentido Usina, precisa proibir estacionamento. Todos os dias há motos estacionadas próximo ao INSS e, por causa de duas motos, a cidade inteira paga um preço alto. Também precisamos criar faixas exclusivas para ônibus das 7h às 8h e das 17h às 19h nas avenidas Wilson Alvarenga e Armando Fajardo. Na verdade, falta um plano de mobilidade. A cidade cresce muito rápido. A avenida Gentil Bicalho é um exemplo disso.
As reclamações de ônibus lotados são frequentes, principalmente nos horários de pico. A empresa monitora essas ocorrências?
Sim. A Enscon monitora e o Setor de Trânsito e Transporte (Settran) também. Temos telemetria em tempo real de todas as viagens. Conseguimos acompanhar horário de saída, chegada e quantidade de passageiros transportados. Sempre que houver uma reclamação específica, podemos verificar o que aconteceu.
Hoje existem linhas ou horários em que a demanda supera a capacidade da frota?
Não. Os horários de pico são naturalmente mais cheios, como acontece em qualquer cidade. O nível de conforto foi definido no edital de concessão, buscando atender a população dentro de um custo que ela consiga pagar.
As mudanças nos horários dos turnos da ArcelorMittal alteraram a operação da Enscon?
Sim. Alguns horários foram criados e outros remanejados em conjunto com a Settran e a ArcelorMittal. Vale lembrar que as empreiteiras continuam operando em três turnos, então essas linhas não sofreram alterações. Todos os horários já estão disponíveis no aplicativo JMBus.
Existe previsão de ampliar a frota ou reforçar viagens para reduzir a lotação e melhorar a pontualidade?
A demanda atual não mostra necessidade de ampliar a frota. O monitoramento é constante e, ajustes podem ser feitos em caso de necessidade. Mas não adianta colocar mais ônibus na rua se eles não conseguem se deslocar. Primeiro precisamos melhorar o trânsito. A rua Pedro Bicalho, por exemplo, hoje recebe elogios pelas mudanças realizadas. Precisamos de mais intervenções desse tipo.
A empresa enfrenta dificuldades para contratar ou manter motoristas?
Não. Hoje nossa equipe está completa e o índice de rotatividade é muito baixo.
A tarifa atual é suficiente para manter o sistema funcionando?
A tarifa está sem reajuste há cerca de seis anos. Hoje a tarifa técnica é de R$5,78, enquanto o passageiro paga R$4,00 em dinheiro e R$3,80 no cartão. Essa diferença é coberta pelo subsídio pago pela Prefeitura. A ideia do edital de licitação é justamente equilibrar a qualidade do serviço com uma tarifa acessível. Não adianta colocar cem ônibus rodando e cobrar R$10 de passagem.
A demanda de passageiros já voltou ao patamar anterior à pandemia?
Ainda não. E acredito que só voltará se a tarifa ficar ainda mais barata, algo em torno de R$2,00. O comportamento das pessoas mudou. Isso não afeta apenas o transporte coletivo. O comércio de Carneirinhos está sofrendo também. Bets e empréstimos consignados estão matando as famílias.
Como é o relacionamento da Enscon com a Prefeitura?
Sempre houve diálogo. A empresa é parceira de João Monlevade e quer oferecer um serviço cada vez melhor para a população.
Se o senhor dependesse do ônibus para ir ao trabalho todos os dias, estaria satisfeito com o serviço prestado?
Sim. O usuário precisa conhecer melhor o aplicativo JMBus, que mostra em tempo real onde o ônibus está. Os Transportes Bela Vista e a Viação Vale do Piracicaba também estão lá. Isso evita que a pessoa fique na rua esperando. Além disso, temos uma frota nova, e considero que Monlevade possui alguns dos melhores motoristas do transporte público.
Qual é a principal mensagem que o senhor deixaria para a população sobre o futuro do transporte coletivo?
A cidade precisa de mobilidade. Não preocupe com o ônibus, porque iremos atender onde for preciso. O problema é que não adianta aprovar novos loteamentos, como o Mirante dos Cristais, se o ônibus precisa entrar de ré para fazer o percurso. Além disso, teremos as obras da BR-381 pelos próximos cinco ou sete anos, com mudanças importantes nas travessias da cidade, como nos bairros Santo Hipólito, Tanquinho I e II e ABM. Provavelmente, teremos duas cidades com as obras, e acho que o cumprimento de horários será um sonho impossível.


