(*) José Geraldo Leite
Continuando minha trajetória, apresento a última parte que narra minha despedida de João Monlevade. Minha mãe partiu antes para acompanhar meu pai na maior cidade do país, levando um dos meus irmãos, mais novo e duas das minhas irmãs, que ainda não estavam estudando. Eu permaneci com meu irmão e minha irmã, os mais velhos, para terminar os estudos: eles foram para o Jenny Faria, e eu continuei no Polivalente da Vila Tanque, em Monlevade, desde que retornamos de Belo Horizonte (BH).
Nós três ficamos na casa de minha avó materna, mas eu frequentemente voltava à Rua Monte Santo para brincar com Zezinho, filho do Zé Bacheiro, amigo dos meus pais. Eu circulava por toda a cidade: Carneirinhos, Santa Bárbara, Vila Tanque e Jacuí. Da casa da minha avó paterna saia para todos os cantos, tios e tias por toda parte. Estudar na Escola Polivalente, na Vila Tanque, exigia que eu pegasse o ônibus sozinho, que atravessava a cidade. O modelo da escola era inovador e seria útil para o ensino atual, oferecendo aulas de artes culinárias, artes industriais, artes comerciais e inglês, além das matérias normais do ciclo do ensino fundamental, tudo muito bem-organizado.
Os professores e professoras tinham uma abordagem mais livre de ensino: aulas em grupo, folhas grandes, lápis e canetas coloridas, régua e compasso. Meus desenhos ganharam forma e cor, com predominância de azul e verde. Nas aulas de desenho técnico, eu me esforçava para manter a folha limpa e, felizmente, consegui passar de ano.
Havia muitos primos e primas espalhados pela cidade. Com alguns, eu passava a semana para ir à escola e almoçar; os outros moravam perto da linha do trem, do estádio de futebol, do rio, da barragem e da mata fechada. Era lá que eu passava os fins de semana brincando e, ocasionalmente, vendendo pastel ou picolé em dias de jogos. A bola de futebol e a bola de gude eram os brinquedos de todos.
À noite, no alpendre, junto ao meu tio Mário, tia Lia, primos e primas, eu contemplava as estrelas. A mata escura realçava o céu estrelado. Tínhamos à nossa frente o rio de água verde-escura, a barragem que o cortava e dava acesso à mata fechada do outro lado, o estádio de futebol com jogos aos domingos, e a linha do trem que transportava minério para o porto de Vitória. Era uma cena que surpreenderia qualquer artista, como Van Gogh ou Portinari em sua contemplação da Serra de Petrópolis.
Meu avô era um bom leitor e cartunista. Lembro-me de um desenho a lápis que ele fez na parede do alpendre, de uma moça com seios grandes. Procurei um caderno dele com alguns desenhos para incluir aqui, mas não tive sucesso na busca. Penso que, se tivesse ido para uma capital, ele poderia ter se tornado um cartunista renomado.
Nos fins de semana no Jacuí, a programação era diversificada: ir ao córrego no meio da mata, subir uma serra íngreme até a estrada, visitar a barragem, ou jogar bola no estádio ou no campinho ao lado da linha de trem. Tudo isso, em meio a muitas crianças como eu.
O jantar no fogão a lenha acontecia cedo na casa de tia Lia no Jacuí. A casa estava sempre cheia: éramos doze no total (seis meninos e seis meninas), além do meu tio e minha tia, todos reunidos em volta da mesa. Parecia a Santa Ceia, pois todos se reuniam para comer e conversar juntos, seja no almoço ou janta.
Quando a noite chegava, eu passava boa parte do tempo olhando para o céu, contemplando a escuridão da mata fechada. As estrelas brilhavam muito mais que hoje, já que a iluminação da cidade era escassa. Nos fins de semana, ainda de madrugada, ouvia-se o trem de carga de minério a caminho do porto, um som que alimentava o sonho de viajar. Até que chegou ao fim minha estada em Monlevade.
A viagem foi longa, de ônibus. A estrada era de pista única, cheia de curvas, morros e buracos. Levamos muitos lanches: queijo de minas, linguiça, sucos e café com leite. Éramos nós três: eu, minha irmã e meu irmão. Fomos levados pelo amigo do meu pai, que estava retornando de uma visita à sua família, o Dedão, ex jogador do Real, que no futuro virou meu sogro.
A coisa mais marcante que vi ao chegar a São Paulo, em 1978, foi a beleza da Rodoviária Júlio Prestes, algo que me fez admirar a arquitetura da cidade naquele início. Um cenário bem diferente de hoje, onde a região ao redor é conhecida como Cracolândia. Essa é a última parte da minha trajetória até a chegada em São Paulo.
(*) José Geraldo Leite Coura é monlevadense e advogado em São Paulo – OAB-SP 442394

