Gosto de perguntas. Os questionamentos me ajudam a pensar! E, por isso, outro dia, ouvi de uma colega que eu “gosto de dificultar as coisas”. A provocação me fez refletir mais um pouco. E respondi: gosto de fazer você pensar! A ideia não é esvaziar a proposta que chega até mim, mas, quando necessário, alargar a linha de pensamento e depois afunilar para obtermos uma proposta pedagógica refletida a partir dos parâmetros educacionais.
Na pesquisa científica, lançamos mão da questão problema. No jornalismo, perguntamos, investigamos, cruzamos dados e fontes. Em muitas escolas falamos de consignas. Seja como for, gosto de perguntas. Elas nos distanciam das certezas absolutas, do único ponto de vista, da única fonte de informação e do consenso. E no meu cotidiano, sempre me deparo com questionamentos.
Num determinado dia, uma senhora me perguntou: “como devo trabalhar o letramento racial?” Em outra ocasião, professores me apresentaram a mesma indagação. Para além das leituras, eles queriam dar o próximo passo. Ouvi recentemente: “convivo com uma criança preta que não gosta da cor da pele e do cabelo. O que devo fazer?”
Em todas as questões, apresentei autores e falei sobre livros, músicas e filmes.
O tempo passou e as perguntas retumbaram em mim. Nos últimos dias, venho me preparando para uma formação. Mergulhei no livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, no documentário “Amarelo – É tudo pra ontem”, do Emicida, no Estatuto da Igualdade Racial de Minas Gerais e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil.
Entre uma leitura e outra, me recordei de Malcolm X. Ele fazia perguntas. Nem de longe estou me comparando, mas contextualizando. Estamos conversando sobre os questionamentos que nos movem para a reflexão em busca de outras respostas. “Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo, a cor da sua pele, o formato do seu nariz, dos seus lábios, a odiar os seus?” São algumas das questões apresentadas por este gigante líder negro.
A resposta parece óbvia, mas não para todos. Foram os adultos brancos e racistas que criaram uma linha de raciocínio sobre raça inferior a ponto de essa perniciosa ideia atravessar a subjetividade das pessoas negras, nos levando a repulsa por sermos quem somos.
Nos ensinaram um padrão de beleza e a eliminar outra expressão de identidade. Todos os dias lidamos com o sentimento de rejeição de pessoas pardas e pretas consigo, seja crianças, jovens, adultos ou idosos.
E nós que temos consciência do nosso valor, precisamos nos apresentar no cotidiano como referência, representatividade de beleza e orgulho de sermos negros.
A educação antirracista se faz com a existência. No letramento, os livros e outros recursos são indispensáveis, mas não substituem o exemplo da mulher e do homem pretos seguros de si.
Desejo que cada pessoa encontre a cura e a justiça para a dor causada pelo racismo. E que mãos negras e corações quentes comprometidos com a educação antirracista te alcancem e te acolham como sujeito potente para o qual você foi chamado a ser, pequena criança preta!
Juntos, sejamos presença e exemplo. (Re) Existimos!



