A polêmica envolvendo o futuro da rodoviária de João Monlevade nesta semana talvez revele algo maior do que uma simples discussão sobre embarques e desembarques. Ela expõe uma questão mais profunda e que defendo há anos. Em qual cidade queremos viver?

Isso não se trata apenas de onde os ônibus irão parar. Mas da capacidade de imaginar o futuro e de planejar a cidade que desejamos deixar para as próximas gerações. Cidades que pensam grande constroem soluções igualmente grandiosas. Já as cidades que se acostumam ao improviso acabam se acostumando também à mediocridade. E isso não combina com Monlevade. De maneira alguma.

Sempre digo que João Monlevade nasceu de um sonho ousado. Foi concebida por homens que enxergavam décadas à frente do seu tempo. Desde a chegada de Jean Monlevade que vislumbrou o futuro grandioso dessa terra com o minério de ferro e montou a mais importante fábrica de ferro do século XIX em meio à floresta. Cinquenta anos depois da morte de Jean, Louis Ensch escavou a maior usina da América Latina entre um barranco e um rio, e ergueu uma cidade ao redor, definitivamente, não pensou pequeno.

Nossa cidade carregou por décadas o orgulho de ser inovadora, futurista, com arquitetura moderna para a época, inspirada na Bélgica e Luxemburgo. Sem contar uma das mais arrojadas, a primeira igreja em formato de “V” do mundo, símbolo de criatividade e vanguarda. Monlevade sempre foi uma cidade iluminista, industrial, progressista e visionária.

Talvez por isso a ideia de uma solução improvisada para uma rodoviária tenha provocado tanto desconforto. Não necessariamente pela necessidade da mudança, que pode ser legítima e até inevitável, mas pela sensação de que uma cidade com a história e a importância regional que tem, não pode se contentar apenas com remendos temporários ou adaptações permanentes.

Monlevade precisa voltar atrás e pensar grande, para ser de novo, a cidade que era em sua origem e essência. Precisa de novos cartões-postais, monumentos e obras de arte que anunciem ao visitante que ele está entrando em uma cidade diferenciada. Precisa de espaços culturais, museus, centros de exposições, galerias e de um teatro capaz de receber grandes espetáculos e eventos. Precisa ampliar o acesso à cultura e valorizar seus artistas e sua produção intelectual.

Precisa também continuar apostando em projetos estruturantes. A futura estação de tratamento de esgoto, inaugurada na próxima semana, é um exemplo disso. Uma obra aguardada há décadas e que finalmente sai do papel, é o tipo de investimento que projeta a cidade para o futuro.

Mas é preciso ir além, seguir inovando, atraindo novas empresas, gerando oportunidades e servindo de inspiração para os municípios vizinhos. Durante muito tempo foi assim. Saudosos prefeitos como Bio e Antônio Gonçalves, cada um ao seu modo e em seu tempo, compreenderam que algumas cidades simplesmente não nasceram para ser coadjuvantes.

Então, daí a relação clara e direta entre memória e futuro. Quando uma cidade esquece quem foi, ela perde a capacidade de saber quem se é e quem se deseja ser. E quando perde essa referência, corre o risco de aceitar como normal aquilo que antes pareceria insuficiente. A memória não é nostalgia, mas bússola.

Talvez esteja na hora de João Monlevade voltar a conversar com suas origens, recuperar a confiança em sua própria grandeza e reaprender a sonhar em escala compatível com sua grandiosa história.