(*) Mário Ananias
As muitas procissões a que assisti, quando criança, eram espetáculos de fé e de resiliência. As estreitas e íngremes ruas da Vila Tanque, bairro monlevadense em que nasci, acolhiam o cortejo. Até as pedras que as pavimentavam pareciam acariciar os pés dos participantes. Homens, mulheres e crianças que caminhavam, às vezes rezando, outras vezes cantando ou em respeitoso silêncio.
Encabeçava o cordão um grupo de católicos transportando uma imagem representativa, logo depois do padre que, como um maestro numa grande orquestra, guiava as rezas e o ritmo da procissão. Um belo espetáculo.
A grande maioria dos convivas nesse evento de contrição religiosa portava uma vela acesa. Eu só entendi, muito tempo depois, a razão daquele cone de papel branco que envolvia as velas. Eram para evitar que o vento as apagasse. Sempre receei que a vela pudesse queimar o papel e machucar seu condutor. Talvez uma consequência de duas lembranças, experiências dolorosas que vivi. A primeira, de certa vez que coloquei fogo em uma embalagem plástica vazia de açúcar para ver o gotejamento do material incandescente.
Festa para os olhos de uma criança com quase nulo acesso a brinquedos industrializados. Uma dessa gotas, inflamada, pousou sobre meu pé direito descalço e provocou uma dor dilacerante. Minha lentidão e equilíbrio instável, decorrente da sequela de poliomielite, também conhecida como Paralisia Infantil ou Doença das Manhãs, facilitou para que o dano fosse um pouco mais intenso e longevo.
O outro acidente também foi em consequência de uma estripulia. Minha irmã mais velha fritava deliciosas bananas em uma panela cheia de óleo fervente, como é natural. Para tanto, usava um fogareiro alto de uma única boca acoplado a um pequeno botijão de gás. Todo o conjunto estava disposto ao centro, sobre uma mesa comprida que servia à nossa grande família, com mais de dez membros.
Numa das extremidades da mesa, cuja altura era, mais ou menos, da minha boca, encostei-me a essa mesa com os braços erguidos e cruzados para assistir àquela novidade, como quem assiste um programa de tv. O conjunto perdeu a estabilidade, talvez em função do borbulhar do óleo, e tombou na minha direção. De novo, a minha lentidão não permitiu que me afastasse em tempo e aquele óleo, agora em chamas, atingiu em cheio meu braço direito que, quase imediatamente, tomou a forma de uma pururuca absolutamente dolorosa.
Com meus dez anos de idade, assisti, pela tv de um vizinho, o Festival da Record em que o então iniciante Gilberto Gil defendia uma canção autoral que se tornou ícone na MPB: Procissão (1967). Um trecho da música compara a procissão a uma cobra que rasteja pelo chão e eu procurava imaginar, como se olhasse de cima, a cena daqueles cortejos do meu bairro. Era impactante.
Nas missas, aos fins de semana, o padre consagrava um pequeno disco branco erguido acima da cabeça enquanto dizia: “… Este é o corpo de Cristo!”. Mesmo tão jovem, eu tentava avaliar a perfeição daquele, em relação ao meu já tão combalido corpo.
(*) Mário Ananias é monlevadense, servidor público, escritor, palestrante e autor do livro: Sobre Viver com Pólio.
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