(*)Mário Ananias

É interessante observar que a Paralisia Infantil tornou flácidos todos os músculos de minha perna esquerda e parte daqueles na direita. Esse contexto exigiu um grande desenvolvimento do tronco e dos membros superiores. Isso se fez necessário e natural, para suportar as demandas que as pernas já não atenderiam. E essa compleição física é comum àqueles que, desde muito cedo em suas vidas, viram-se privados das funcionalidades plenas nos membros inferiores. Pessoas que, observadas sentadas, aparentam um biotipo de estivador ou fisioculturista, podem ser sequeladas de pólio.

Por todas essas razões, certa vez, aos 14 anos, bem jovem ainda, vivi uma situação inusitada. Um menino de seus 8 anos, filho de um amigo que nos visitava, conversou por algum tempo comigo. Eu estava sentado e ele me avaliou, por inocência, como muito forte. O menino, filho único, era bem agitado e competitivo. Ele saiu para brincar de bola na rua onde havia outras pessoas, meninos e rapazes. Era para ser bem prazeroso. Mas, não foi.

Ele “brigou” com um rapazinho de seus 16-17 anos e correu a buscar apoio em mim. Não sem antes desafiar “em meu nome” o outro menino, chamando-o de fraco, palerma e outros termos impublicáveis. Depois veio fugindo até mim na expectativa de que eu o defendesse; que eu desse uma surra no outro menino… Nunca iria acontecer! E o filho do meu amigo ficou muito decepcionado comigo. Levou algum tempo até ele entender que, mesmo não havendo qualquer intenção de enganá-lo, a percepção a meu respeito foi totalmente equivocada: nunca fui pugilista, nem como atleta; e sou, desde sempre, optante pelas soluções de consenso e de paz.

Minha coragem se impõe com firmeza no enfrentamento das adversidades naturais a quaisquer pessoas e das específicas para o recorte social a que pertenço: o das Pessoas com Deficiência. E já são batalhas renhidas, difíceis e, por vezes, inelutáveis.
Hoje, vencidos mais de 65% de um século, me vejo às voltas com a Síndrome Pós-Pólio (SPP), relacionada na Classificação Internacional de Doenças CID-10 (G14) e CID-11 (8B62).
E observo, aturdido, pasmo, a atuação de alguns dirigentes no Brasil, que agem como aquele menino, filho de meu amigo, desinformado e carente de atenção. Eles, de maneira birrenta e infantil, assumem riscos exagerados e desnecessários em nome da população.

Se arrogam forças e poderes que não possuem, confiando em que nossas frágeis pernas sustentem uma luta invencível contra gigantes. Se sentem os donos da bola e os xerifes da rua. Talvez acreditem que tais atitudes, como no caso do menino, afetarão a outros apenas, sobretudo aos mais simples, deitados “eternamente em berço esplêndido”, sonhando com dias melhores sem atuarem para que tais dias se concretizem.

Tudo isso me remete a pensar nos jogos em que, ao lançar dados, trafega-se em “casas” de tabuleiros nas quais se encontram determinadas ações a se cumprir. Entre elas, fato recorrente na nossa vida de brasileiros, aquelas que informam ao incauto Jogador: “Volte cinco casas”; “Fique sem jogar por duas Rodadas”; “Volte ao início!”

(*) Mário Ananias é monlevadense, servidor público, escritor, palestrante e autor do livro: Sobre Viver com Pólio.
Contato: mariosrananias.com.br/