Conforme dicionários de etimologia, a palavra ignorância vem do latim ignorantia, derivada de ignorare, “não saber”, verbo formado por in-, negação, e gnarus, “conhecedor”. O adjetivo ignorante vem de ignorans, particípio presente do mesmo verbo: aquele que não sabe. Originalmente, não implicava estupidez ou arrogância. Mas ignorare tinha ainda outro sentido, o de “não tomar conhecimento”, que sobrevive no nosso verbo ignorar. Já na raiz da palavra convivem, assim, duas ideias distintas: não saber e não querer saber. É entre elas que este ensaio se move.

Hoje, porém, poucas palavras são tão mal compreendidas e se tornam armas na boca de alguns. No uso cotidiano, ignorância aparece quase sempre como ofensa. Em seu sentido mais elementar, contudo, é apenas aquilo que não sabemos. E ninguém escapa dela. Sócrates fez da consciência da própria ignorância um dos fundamentos de sua filosofia, sintetizada na máxima que se lhe atribui: “Só sei que nada sei”. Quase dois mil anos depois, o ensaísta Montaigne resumiria essa inquietação na pergunta: “Que sei eu?”. Ela continua atual, num tempo em que tanta gente tem resposta para tudo e curiosidade para quase nada.

A ignorância de que falo aqui, portanto, não é a de quem desconhece. Essa é de todos nós.

É a ignorância voluntária, a do “ignorar” no sentido de recusar-se a tomar conhecimento: a de quem recebe uma informação e não a verifica; que encontra um fato e o adapta ao próprio entendimento; que não procura a verdade, mas argumentos para continuar tendo razão. O desconhecimento pode ser vencido pelo estudo. A ignorância voluntária é alimentada pelo próprio sujeito, que, diante de uma informação que contradiz sua crença, em vez de examiná-la, procura uma maneira de descartá-la. Quer apenas confirmar aquilo que já decidiu acreditar.

A pensadora alemã Hannah Arendt, em “Verdade e política” (1967), argumenta que a verdade factual é frágil diante do poder e que, quando fatos viram opinião, perde-se o mundo comum que nos permite discordar sobre alguma coisa. Em “As origens do totalitarismo” (1951), ela vai além e mostra como regimes totalitários dependem de súditos para quem a distinção entre fato e ficção já não faz diferença. É o que vemos quando a realidade vira matéria-prima de narrativas particulares.

Dessa forma, o ignorante voluntário pode ter uma biblioteca inteira na palma da mão e continuar ignorante por escolha. Seleciona as fontes, os cortes que assiste e compartilha e até os fatos que considera dignos de indignação. Se a informação confirma suas convicções, é verdade; se as contraria, é “narrativa”, “perseguição” ou “fake news”.

Por isso, a ignorância seletiva talvez seja uma de suas formas mais perigosas. Conhece todos os defeitos dos adversários e desenvolve amnésia diante dos erros dos aliados, silenciando sobre condutas que condenaria nos adversários. Se o acusado é do próprio lado, aparecem as explicações, as ressalvas, o contexto e a relativização. Defende-se quem está envolvido em escândalos ou associado a grupos criminosos, desde que esteja no campo político considerado correto. O mesmo fato muda de nome conforme muda o personagem.

Todos somos ignorantes diante de alguma coisa. O problema começa quando fazemos da ignorância uma trincheira, até um motivo de orgulho. Afinal, não saber é humano. Mas não querer saber é uma escolha. O ignorante voluntário não é aquele que não conhece: é aquele que, diante da possibilidade de descobrir que está errado, prefere viver na própria ignorância.

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação