Fazer uma análise, mesmo quando ela contraria aquilo que pensamos, desejamos ou defendemos, é necessário. Talvez seja uma das tarefas mais difíceis de quem acompanha a política de perto e conhece os mecanismos que movimentam o poder.

Quem conhece os bastidores sabe que, se tudo o que se sabe viesse a público de uma só vez, talvez fosse possível derrubar um governo a cada dia. Mas não é esse o caminho. A primeira premissa para qualquer cidadão deveria ser a honestidade: diante de algo errado, é preciso denunciar, apresentar provas e recorrer aos órgãos competentes.

O que me entristece é a dificuldade de parte da sociedade em fazer uma análise crítica dos fatos. Essa resistência em enxergar aquilo que contraria nossas próprias convicções transforma a política em uma disputa entre torcidas. Quando isso acontece, a verdade passa a depender do lado de quem fala.

O corporativismo entre os poderosos também cobra seu preço. Uma eleição pode ser colocada sob suspeita quando denúncias, disputas institucionais e interesses de grupos se misturam em um ambiente no qual deveriam prevalecer regras claras e respeito às instituições.

Mais grave é quando as controvérsias alcançam ministros da Suprema Corte, justamente aqueles que, pela Constituição, têm a responsabilidade de atuar como seus guardiões. Parece que deixamos de ter campanhas políticas para assistir a um ringue institucional a céu aberto.

Defender o Supremo Tribunal Federal como instituição é uma obrigação democrática. Isso não significa colocar seus ministros acima das críticas. Ao contrário: representantes de instituições tão poderosas precisam estar submetidos aos mesmos princípios de responsabilidade, transparência e legalidade que se aplicam aos demais agentes públicos.

A Constituição estabelece direitos, deveres e limites para aqueles que ocupam os mais altos cargos da República. O problema começa quando escolhas políticas, interesses circunstanciais e relações de poder passam a contaminar a percepção de independência das instituições.

É aí que a democracia começa a perder o equilíbrio. O que deveria ser uma disputa eleitoral baseada em propostas e diferentes visões para o país corre o risco de se transformar em uma pelada de campo: cada lado joga com suas próprias regras, enquanto a arquibancada grita por aquilo que já decidiu acreditar.

Enquanto os poderosos disputam espaços e influência, milhões de brasileiros continuam preocupados com o básico: emprego, saúde, educação, segurança, moradia e comida na mesa. A briga entre os donos do poder pode parecer distante, mas suas consequências nunca são.

A Justiça deveria ser o fiel da balança. Quando a sociedade passa a enxergar essa balança como inclinada para um dos lados, instala-se a desconfiança. E, quando a confiança nas instituições se perde, recuperá-la é muito mais difícil do que destruí-la.

A imagem clássica da Justiça, com os olhos vendados, simboliza a imparcialidade. Diante de tantos descalabros que chegam ao conhecimento público, é como se tivesse tirado a venda, não para escolher um lado, mas para assistir, constrangida, ao que acontece diante de seus olhos.

O fundo do poço parece não terminar nunca. Democracia, entretanto, não pode funcionar de acordo com aquilo que desejamos que aconteça. É preciso defender as instituições quando acertam, criticá-las quando erram e cobrar responsabilidade de seus integrantes sempre que houver elementos concretos para isso.

A democracia não pertence a um grupo, partido, ministro ou governo. Ela pertence a todos nós. E, se as eleições não forem do jeito que penso, que se critique, que se cobre, que se fiscalize. Mas que ninguém precise entupir o poço.

(*) Sinézio Santiago é monlevadense e acompanha a política local