Parei para ler com calma um post que vi passando rápido pela tela do celular dia desses: “A Semana é Santa, eu não”. Ri sozinho, mas fiquei pensando na frase. Ela carrega uma sinceridade que a gente raramente encontra hoje por aí. Afinal, no mundo de aparências, justamente das redes sociais, onde a vida no Instagram parece perfeita, mas após ser editada, admitir a “não santidade” é quase um ato de libertação.

Essa provocação ganha um peso diferente agora, na proximidade da Páscoa.

Independentemente da fé de cada um, o calendário é propício para um balanço e reflexão. E, sejamos sinceros: o nosso saldo de “pecados”, aqueles do dia a dia, como o orgulho, a palavra dita sem pensar, a omissão quando deveríamos agir, ou como tratamos nossos próximos, é sempre maior do que gostaríamos de admitir.

A gente vive uma era estranha, onde errar virou proibido. Criamos uma cultura de tribunal permanente, onde o erro do outro é imperdoável, enquanto os nossos tropeços ganham sempre uma legenda explicativa ou uma desculpa na ponta da língua. Falta o básico: aceitar que a nossa condição humana é, por natureza, imperfeita.

Gosto de uma referência que os Racionais MC’s eternizaram em “Vida Loka”, o perdão “aos 45 do segundo tempo”. Aquela cena bíblica de Dimas na cruz é o maior exemplo de que o recomeço não exige um passado limpo, mas um presente lúcido. O que o salvou não foi a perfeição, mas a coragem de dizer “eu errei” e a humildade de pedir para ser lembrado por Jesus quando estivesse no paraíso.

Mas sejamos francos: admitir o erro é um dos exercícios mais difíceis que existem, pois exige a quebra do ego. E isso dói. Na vida pessoal, perdemos abraços por não saber pedir desculpas. Na vida, perdemos tempo insistindo em caminhos que já se provaram errados, apenas para não dar o braço a torcer. E na convivência pública, então, nem se fala. Se cada um de nós gastasse metade do tempo que usa julgando os outros para reavaliar as próprias atitudes, o mundo seria bem mais leve.

A grande lição que fica é que errar é inevitável, mas estacionar nesses erros é uma escolha. Recomeçar não é apenas virar uma página, mas rever ações, visões e pensamentos. É olhar para dentro sem os filtros do Instagram, encarar nossas sombras e decidir o que merece ser carregado daqui para frente.

Essa maturidade de reconhecer nossas fragilidades é o que nos torna mais humanos e menos “juízes”. No fundo, a Páscoa é esse convite para o descarte, para deixar para trás o que não serve mais e abrir espaço para uma versão melhorada de nós mesmos.

E ninguém precisa ser santo para recomeçar. O que precisamos é sermos mais honestos conosco mesmos e entendendo que a vida não é uma sentença definitiva, mas um processo contínuo de revisões. A vida é curta demais para carregar o peso de quem não se permite tentar de novo. O recomeço está logo ali, esperando o nosso próximo passo. Feliz Páscoa! Feliz renascimento.