(*) Erivelton Braz

João Monlevade deu quase 7 mil votos ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL) na última eleição. Em troca, recebeu silêncio e nenhuma ação concreta em prol do município. Nenhuma palavra sobre a duplicação da BR-381, nenhum recurso para o Hospital Margarida, nenhum gesto concreto em favor das demandas históricas da cidade e do Médio Piracicaba. Esse dado, por si só, já deveria nos fazer refletir: em 2026, vamos seguir entregando votos para quem não devolve presença, recursos ou compromisso com a região?

Vivemos um momento em que várias pré-candidaturas a deputado surgem quase simultaneamente na região. À primeira vista, isso pode parecer positivo, sinal de vitalidade política e compromisso para o futuro. Mas, na prática, o excesso de nomes disputando o mesmo eleitorado tende a enfraquecer o Médio Piracicaba como um todo. Pulverizar votos nunca foi estratégia inteligente para regiões que lutam por espaço político.

Temos 18 cidades, cerca de 300 mil eleitores, mas nenhuma união em torno de candidatos locais. Hoje, nomes como do ex-prefeito de São José do Goiabal, José Roberto Gariff Guimarães, o prefeito de Rio Piracicaba, Augusto Henrique da Silva, e o ex-vereador Djalma Bastos disputam, em grande medida, as mesmas atenções, os mesmos municípios e as mesmas bases eleitorais. Soma-se a eles André Viana, de Itabira, que embora esteja geograficamente inserido no Médio Piracicaba, politicamente não se reconhece como parte dele, o que fragiliza ainda mais qualquer tentativa de construção regional.

O risco é iminente. No fim das contas, essa fragmentação pode não eleger ninguém da região. E isso seria mais um capítulo triste de uma longa história. Estamos falando de um território com quase 500 mil habitantes, economicamente relevante, PIB de 3,5 bilhão, estrategicamente localizado, mas que está há quase 30 anos sem uma representação política efetiva em Brasília. Três décadas sem alguém que levante a voz, bata na mesa e defenda, de forma contínua, os interesses regionais.

É justamente por isso que o caminho mais responsável não é o da vaidade política, mas o do diálogo. O entendimento entre as lideranças locais é urgente. O ideal, ainda que difícil, seria a construção de um consenso em torno de nomes capazes de unir as cidades, somar forças e concentrar votos. O que não pode mais se repetir é a quantidade de votos a candidatos sem comprometimento com as cidades.

A região não precisa apenas de candidatos, mas de lideranças. Precisa de nomes que conheçam os problemas locais, que circulem pelas cidades, que saibam onde o calo aperta e que tenham compromisso real com pautas como infraestrutura, saúde, mobilidade e desenvolvimento regional. Ainda mais num cenário pós-mineração.

Fortalecer candidaturas locais é uma decisão estratégica. Do contrário, os municípios vão continuar entregando votos para políticos que aparecem apenas em época de eleição, somem depois das urnas e nunca retribuem os votos recebidos. Cada deputado tem cerca de R$60 milhões em emendas. Quantos dos nossos problemas poderiam ser resolvidos se esses recursos fossem direcionados para pautas locais?

Com os nomes em jogo, as pré-candidaturas precisam conversar entre si, alinhar projetos, medir forças com responsabilidade e, sobretudo, colocar o interesse coletivo acima dos interesses individuais. A defesa do Médio Piracicaba exige grandeza política. Do contrário, se continuarmos divididos, outros continuarão decidindo por nós. Mais uma vez, ficaremos olhando de longe enquanto recursos, obras e investimentos passam direto pela região. O diálogo e o entendimento não são sinais de fraqueza. São, hoje, o caminho possível para que o Médio Piracicaba volte a ter voz, vez e representação de verdade no Congresso Nacional.

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação