(*) Paulo Roberto Reis

Sou ATLETICANO e não é por acaso. No meu tempo de criança, não conhecíamos o futebol mineiro e nossa torcida era para os times cariocas. Meu irmão Tiúca era Botafogo, Jésus, Flamengo e eu Vasco. No entanto, tínhamos o nosso futebol local. Lá pelos idos de 1958, eu , com sete, oito anos, ficava feliz em ir para o campo do Jacuí, ver os jogos. Sempre que possível, ia com o senhor José Gracindo, que ao chegar a portaria, falava com o porteiro: – Paulinho está comigo. E eu passava feliz da vida. Outras vezes, o jeito era pular o muro do campo. Era preciso levar panos velhos ou papelão para cobrir os cacos de vidro, pois se machucasse, a surra era certa em casa. O mais difícil para pular o muro era a vigilância do senhor Vicente do campo, que quando nos apanhava, os cascudos eram certos.

Nessa época, Monlevade tinha bons times, Metalúrgico, Belgominas, Vasquinho. O principal jogo, o clássico da cidade era metalúrgico X Belgominas, sendo que o Metalúrgico era preto e branco e se chamava CLUBE ATLÉTICO METALÚRGICO, “CAM” e era o time para o qual eu torcia fervorosamente, já naquela idade.

Por volta de 1961/1962, ainda antes do Mineirão, comecei a ouvir falar dos times mineiros e torcer para o GALO foi uma escolha normal, dentro daquilo que fazia desde os oito anos de idade. Assim como na infância, um período de muitas alegrias e muitas tristezas.
Já na fase adulta, enfrentava horrores para ver um jogo do GALO. saía de Monlevade no ônibus de nove e meia da manhã, chegava em Belo Horizonte por volta de meio dia e ficava aguardando os ônibus para o Mineirão. Uma luta para conseguir embarcar. O dinheiro era sempre pouco e tinha que fazer dieta pois não sabia quanto gastaria de ônibus na volta. O jogo normalmente era às quatro ou cinco da tarde e quando acabava, não tinha mais condução direta para Monlevade, tendo que pegar qualquer um que passasse por aqui, pois no dia seguinte era dia de trabalho. Era muito difícil a viagem até aqui quando o time perdia. Além do astral lá em baixo por mais uma derrota, tinha que aguentar a gozação de passageiros que nem sabiam de futebol, mas me viam com a camisa do GALO.

Nunca deixei de usar, nas vitórias sensacionais ou nas derrotas vexatórias, lá estava eu, chegando à rodoviária com o manto sagrado, para enfrentar três horas de condução até chegar em casa. E quando chovia? Tinha que negociar com o vendedor no guichê para conseguir a passagem e depois com o motorista para entrar no ônibus.

Eu estava no Mineirão quando o Hélio chutou uma bola, que bateu na nuca do Natal e foi gol do cruzeiro. Eu estava no Mineirão, quando num jogo classificatório contra o Coritiba em que o Reinaldo aprontou tanto com o juiz que ele foi obrigado a expulsá-lo e o GALO foi desclassificado. Além dessas, estive em várias outras situações vexatórias do GALO, em que não rasguei a camisa porque não tinha outra para vir para casa. Por isso digo, não sou ATLETICANO por acaso, tenho minha história com essa entidade, principalmente no clássico maior, GALO x cruzeiro.

Não tenho muita esportiva quando se trata do GALO. Nas redes sociais, sou incapaz de entrar na página de qualquer amigo, para zoar. Faço sim, a maior zoação, NA MINHA PÁGINA! Em compensação, não aceito gozações em minha página de quem quer que seja. Mexeu com o GALO na minha página, corre sério risco de ser bloqueado, sério mesmo!
Se estou feliz com a vitória do último domingo? É claro que sim, até porque o cruzeirense contava com um goleada e até mesmo aquele bobo da corte, número 19, quis nos desrespeitar dentro da Arena. Ser ATLETICANO é coisa séria!

(*) Paulo Roberto Reis é monlevadense, professor, ex-secretário de Saúde de João Monlevade (e atleticano que não desiste nunca).