(*) Melina Maciel
Mais de 8 em cada 10 profissionais brasileiros relataram sintomas de burnout no último ano, um dado alarmante, mas também revelador. Ele mostra uma força de trabalho que aprendeu a funcionar no limite, e uma cultura que ainda associa alto desempenho à disponibilidade permanente. São dados dos achados na edição do Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, pesquisa global do Wellhub, realizada com mais de 5 mil profissionais em 10 países.
Os dados apontam uma maior consciência das pessoas em relação à saúde mental, o que acaba pressionando as empresas a adotarem medidas mais concretas para a prevenção do adoecimento. O impacto dessas ações tem gerado resultados positivos no ambiente de trabalho. O bem-estar deixa de ser apenas um benefício e passa a ser visto também como uma estratégia de alta performance, em todos os aspectos.
Mas essa realidade ainda é privilégio de poucos no mundo corporativo e, a grande maioria, continua vivendo no limite. As crianças e adolescentes seguem educadas por pais exaustos e por um sistema de ensino à beira do colapso. Há um longo caminho pela frente, e algumas perguntas precisam ser feitas: Se até as empresas “ensaiam” ações para garantir o bem-estar dos funcionários, ainda que seja uma visão puramente estratégica…
Mas, por que as escolas seguem buscando produtividade a todo custo? Por que continuam a ser avaliadas com base nas aprovações em processos seletivos? Por que insistem em manter métodos e formatos de ensino sabidamente ultrapassados, mesmo diante da disparada no adoecimento mental em crianças, adolescentes e em educadores?
Nos últimos anos, a saúde mental de crianças e adolescentes alcançou níveis alarmantes. Pela primeira vez, a ansiedade entre jovens superou os índices em adultos. E estudos recentes destacam: Um crescimento de 152% na incidência de depressão entre 2013 e 2019 (IBGE). O aumento de 4,5% para 8% nos casos de depressão em crianças de 6 a 12 anos (OMS). Taxas de depressão de 6,23% entre jovens de 18 a 21 anos (Senado Federal).
Os Programas de Educação Emocional atuais, quase sempre, servem apenas para conferir status e visibilidade para as escolas, sobrecarregar os estudantes e professores, e camuflar a realidade. Há um abismo entre teoria e prática. Quando recebemos o certificado que marca a conclusão do ensino médio, nos lembramos com precisão de fórmulas e teorias que jamais serão aplicadas na vida, mas sabemos pouco ou nada em relação a quem somos e o que buscamos.
Nosso olhar crítico, nossas motivações, potenciais e talentos são muitas vezes soterrados pela sobrecarga de conteúdo objetivo, pelos formatos de avaliação que não medem conhecimento e pela pouca criatividade dos métodos de ensino, baseados em longas horas enfileirados dentro de uma sala de aula.
“É preciso preparar para o futuro!”, eles dizem. Mas em 2016, o Fórum Econômico Mundial apontou que 65% das profissões do futuro ainda não existem — e muitas crianças que hoje estão iniciando o Ensino Fundamental ocuparão cargos que também não existem. Os dados mostram ainda que 1/3 do conjunto de habilidades básicas que serão desejadas na maioria das ocupações não são consideradas cruciais para o trabalho de hoje. Dentre essas habilidades estão: colaboração, consciência ambiental, persistência, resiliência, pensamento crítico, iniciativa, coragem, empatia, trabalho em equipe.
O profissional do futuro precisará muito mais do que ser “treinado” para atividades repetitivas e competências técnicas. É necessário que as escolas formem estudantes com boa capacidade de adaptação e aptos para construir pensamentos críticos, criativos e inovadores.
A inteligência artificial é uma realidade e os seres humanos bemsucedidos do futuro serão aqueles capazes de oferecer ao mundo as habilidades que somente o cérebro humano é capaz de desenvolver. O fato é que deu errado até aqui E mesmo assim, seguimos o fluxo, “treinando” as crianças de hoje para serem os adultos doentes de amanhã. Diante desse cenário, surgiu o EmocionaMente: uma iniciativa socioemocional que busca capacitar crianças, famílias e educadores para desenvolver habilidades emocionais essenciais e criar ambientes escolares mais acolhedores e produtivos.
Sabemos que os primeiros anos de vida são fundamentais para moldar o desenvolvimento emocional de um indivíduo, e as experiências vividas neste período estarão diretamente relacionadas à sua essência, ações e comportamentos durante toda a vida.
A educação emocional tem o potencial de transformar a experiência escolar, influenciando diretamente na forma como interagimos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. “Estamos preparando nossos filhos para o futuro”. A pergunta é, para qual futuro?
(*) Melina Maciel é enfermeira, neuropsicopedagoga e educadora parental. Especialista em desenvolvimento infantil, educação emocional e autismo. Fundadora do EmocionaMente, consultora e palestrante.

