(*) José Geraldo Leite
Em busca de melhores condições de vida, meu pai foi para a maior capital do país, São Paulo. Por indicação de um amigo de Monlevade, o Dedão, ele conseguiu o emprego para trabalhar em outra siderúrgica, na Freguesia do Ó, em São Paulo. Minha mãe ficou sozinha, cuidando de todos nós, e as dificuldades financeiras continuaram.
Meu pai vinha de tempos em tempos. Eu estava no primário, iniciando o ensino fundamental. Já desenhava e rabiscava algumas folhas. As letras eram cursivas. Com calma, eu já escrevia de forma arredondada, como a letra de minha mãe, que parecia uma obra de arte. Escrever nos cadernos era algo que preenchia meus dias.
Logo, minha mãe, meus irmãos e irmãs foram embora de BH e voltaram para Monlevade, mas eu fiquei na cidade de Belo Horizonte. Estava no meio do período letivo. Meus pais me deixaram na casa de um compadre, Sr. Antônio. Apesar de criança, eu já me percebia dono do meu destino, tinha um lugar para dormir e comer, estudava pela manhã, depois ficava no campo ao lado da casa ou em outro perto da escola.
Nesse período, com aproximadamente dez anos, eu tinha que ir e voltar sozinho para a escola, algo que já fazia antes: descer o morro, subir outro pela manhã e voltar na hora do almoço; almoçar, jogar bola até o pôr do sol, banho, jantar e cama. Os desenhos e a escrita me acompanhavam, nada que tivesse valor, pelo menos para mim, naquela época.
Não tenho nenhuma recordação visual dessa época, mas lembro que rabiscava desenhos de figuras abstratas que pareciam monstros da minha cabeça. Folheava revistas e jornais velhos sempre que encontrava. Sem prestar muita atenção na leitura, apesar de saber, eu focava nas figuras, imagens, quadros, mapas, tudo que era bastante colorido.
Essa minha estadia foi curta, mas lembro de um convite para participar de uma peneira de futebol no meu time do coração. No entanto, antes, eu teria que ter a autorização dos meus pais. Escrevi uma carta, mas a resposta, pelo compadre dele, veio somente duas semanas depois: meu pai disse que era melhor eu estudar, e meu sonho de jogador terminou ali. Essa carta deve ter ficado em alguma caixa com outras cartas e desenhos.
Minha mãe, meus irmãos e irmãs moravam nos fundos da casa de minha avó paterna, na rua Monte Santo. Fui morar lá também, mas estava sempre na casa de minha outra avó, onde andava sempre com meu avô materno. Ele, que hoje dá nome a uma rua em João Monlevade, era meu padrinho e já estava aposentado na época. Ele visitava sempre uma família em São Gonçalo, numa roça, e ajudava essa família através da SSVP (Sociedade São Vicente de Paula).
Nessa época, a casa do meu avô, na rua Leão XIII, tinha um quintal enorme, com galinheiro, canteiro de horta, bananeiras, pé de abacate e Nona, onde eu corria com o cachorro da casa. Algumas vezes, limpava o quintal e cuidava da horta. A rua no fundo da casa dele ficou com o nome do meu avô por uma lei municipal de número 433, de 1976.
Nos fins de semana, naquela época, corria para o Jacuí, bairro no extremo da cidade, no caminho para Rio Piracicaba, lá na casa de Tio Mario e Tia Lia, me juntava aos meus primos para ir ao Estádio do Jacuí, algo que também não existe mais. Foi lá que trabalhei a primeira vez num fim de semana vendendo pastel durante um jogo amador, não vou lembrar quais eram os times, um estava de verde e o outro de preto e branco. Além do Estádio, tínhamos um campinho ao lado da barragem e da linha do Trem da Vale. Outra diversão era buscar no meio da mata algumas lagoas e quedas d’água e pegar frutas de época. Essa segunda parte fala muito do meu começo, mas ainda não terminou. Espere a última parte, na próxima semana.
(*) José Geraldo Leite Coura é monlevadense e advogado em São Paulo – OAB-SP 442394

