(*) Erivelton Braz

Há algo no ar em João Monlevade. E não é apenas o calor nesse começo de novembro. É o aquecimento que vem tomando conta da política local, sobretudo, na Câmara Municipal. Nas últimas semanas, o que se tem visto é um ambiente cada vez mais tenso entre o Legislativo e o Executivo. O tom das críticas sobe a cada reunião ordinária e a paciência dos vereadores parece ter chegado ao limite com o governo.

Setores do governo municipal, como o Settran, a Casa de Cultura, Secretaria de Obras, Serviços Urbanos, Secretaria de Saúde e Educação, têm sido alvos recorrentes de reclamações e críticas duras. As falas no plenário indicam que o descontentamento já não se restringe à oposição. Há vereadores da base que demonstram irritação, seja pela falta de respostas, seja pela sensação de distanciamento entre os poderes.

Esse cenário deveria acender um sinal de alerta para o governo. Em política, quando o diálogo falha, o ruído cresce. O ditado de que, quem cala, consente, faz total sentido e pode acelerar desgastes, que começam pequenos, mas que tendem a se espalhar.

O governo municipal, que tem méritos em diversas frentes, precisa compreender que agir bem não basta se não houver um relacionamento mais habilidoso e mais presença política. O que se percebe, hoje, é uma espécie de vácuo de protagonismo. O governo caminha bem, tem ações pontuais, supera dificuldades, mas falta um fato novo para a gestão. Falta algo que atraia os olhares da população. Washington Olivetto, um dos maiores nomes da publicidade mundial, dizia que se um assunto não é pauta de mesa de bar, ele não existe. Em política, é assim também.

Em tempos de redes sociais e comunicação instantânea, quem não cria pauta, acaba sendo a pauta. O governo tem o dever de propor debates que inspirem, que ultrapassem as fronteiras da administração cotidiana. João Monlevade precisa de temas maiores, ideias, projetos e sonhos coletivos.

Enquanto isso, os vereadores estão abrindo fogo para tomar esse espaço. Oposição e até os eleitos pela base governista exploram e dão visibilidade a problemas da gestão. O que poderia ser resolvido com uma conversa direta se transforma em discurso inflamado no plenário. E o que era uma crítica pontual acaba em posts, vídeos e indignação nas redes sociais.

A ironia é que, nesta mesma semana, a Amepi sediou um encontro regional com foco justamente na boa relação entre o Legislativo e o Executivo. O evento, comandado pelo prefeito de Rio Piracicaba e presidente da associação, Augusto Henrique, destacou que o desenvolvimento dos municípios passa, inevitavelmente, pela harmonia entre os poderes. É uma lição simples, mas que parece esquecida na prática.

A experiência ensina que política é, acima de tudo, diálogo. E diálogo é tudo na política! O silêncio e as lacunas na política costumam custar caro. E o preço, nesse caso, pode ser o da própria governabilidade.

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação