(*) Erivelton Braz
João Monlevade é uma cidade que nasceu do sonho e da genialidade de um homem à frente de seu tempo: Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade, cuja história pode ser conhecida no meu recente livro, “Nas Terras Pesadas de Metais e Espantos”. Visionário, o engenheiro francês trouxe não apenas o domínio técnico da siderurgia, mas um ideal de civilização, um projeto de progresso alicerçado na educação, na cultura e no trabalho. O que diria ele, hoje, ao ver uma cidade que carrega seu nome, mas parece ter se afastado de sua própria vocação criadora?
Monlevade precisa se reencontrar com seu espírito fundador. E esse reencontro não virá apenas com obras de infraestrutura ou discursos administrativos. Ele exige alma, sensibilidade, imaginação. A cidade precisa de políticas culturais fortes, de eventos que movimentem a economia e, principalmente, de uma gestão ousada o bastante para compreender que o desenvolvimento passa também pela cultura, pela arte, pelo lazer e pela identidade local. É fundamental recuperar essa memória e esse espírito de ousadia para a cidade ir além.
E há caminhos para isso. O município tem hoje um símbolo poderoso: o fio-máquina, condutor da vida monlevadense. Ele é a síntese da força produtiva, da história e da capacidade de transformação de Monlevade. O fio-máquina é desdobrável, versátil, plural. Vai do diâmetro de um fio de cabelo aos cabos que sustentam o mundo moderno. É matéria bruta e refinada, simples e complexa ao mesmo tempo. E Monlevade, como o fio-máquina, precisa aprender a se desdobrar.
Por que não sonhar com um Seminário Internacional de Metalurgia e Siderurgia, trazendo à cidade os grandes nomes do setor mundial? Seria uma forma de afirmar a identidade industrial de Monlevade e, ao mesmo tempo, promover conhecimento, inovação e visibilidade global. E por que não ir além? Um Festival de Cultura do Aço, celebrando música, literatura, teatro, artes plásticas e gastronomia inspirados no fio-máquina, matéria que molda o mundo e a alma monlevadense.
Cultura, turismo, educação e economia criativa podem e devem caminhar juntos. O aço precisa deixar de ser apenas um produto e tornar-se conceito, narrativa, identidade, memória. Um evento desse porte movimentaria a rede hoteleira, os bares, os restaurantes, os artistas locais, os empreendedores. Geraria emprego, renda e autoestima. Faria de Monlevade uma vitrine para o Brasil e para o mundo.
Mas, para isso, é preciso que o poder público, as empresas e as instituições locais conversem, se articulem e se comprometam com uma visão de futuro. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico poderia liderar essa pauta, em parceria com universidades, entidades empresariais, educacionais e culturais. É hora de criar, planejar, ousar. De transformar o fio-máquina, para além da atividade econômica, no condutor de novas ideias para o município.
Monlevade pode e deve voltar a ser referência. Não apenas pela sua produção industrial, mas pela capacidade de integrar áreas diversas, como economia e cultura, técnica e sensibilidade, aço e arte. Moldado pelo legado iluminista, Jean Monlevade acreditava na força do trabalho, mas também na grandeza do espírito humano. Honrar sua memória é fazer da cidade um lugar vivo, criativo e inspirador.
Sabemos que o aço molda estruturas, mas pode moldar consciências. Não por sua dureza, mas por sua versatilidade. Assim, pode-se surgir uma nova Monlevade. Uma cidade forte, bela e de alma vibrante. Uma cidade que se reconhece em sua história e projeta, com coragem e imaginação, o futuro que merece e para o qual foi criada. Viva Monlevade. Monlevade Vive!
(*)Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação

