(*) Marcos Martino

Nossa fragilidade diante do universo contrasta com um certo ufanismo planetário, essa mania de imaginar que somos o centro de tudo, que seres de todas as galáxias estão de olho em nós, que habitamos uma maravilha cósmica, um planeta-santuário especial. Mas a verdade é bem menos gloriosa. Somos um planetinha minúsculo, um “mixuruca”, se quisermos usar o termo mais preciso, perdido entre astros gigantescos e nas infinitas galáxias.

Basta um pequeno desequilíbrio no Sol, e toda a vida na Terra pode virar cinzas em segundos. Um cometa errático, um meteoro de porte médio, e poderemos repetir a história da extinção dos dinossauros. E toda a tecnologia de que tanto nos orgulhamos, os satélites, foguetes, carros elétricos e inteligências artificiais seriam incapazes de resistir a um evento dessa magnitude.

Se um bólido desses atingir o planeta, milênios de história humana seriam apagados, cancelados, num mero piscar de olhos. Pereceriam, assim impérios, deuses, culturas e glórias tecnológicas. Nada restaria de nossas conquistas, de nossos templos digitais, de nossa vaidade científica. Tudo em vão.

Talvez, depois disso, a vida recomeçasse do zero, como já aconteceu. Novas cadeias microscópicas, novos arranjos celulares se uniriam e, quem sabe, após muitos milênios, novos seres inteligentes surgissem sobre a terra. Ou talvez nada disso. O planeta poderia simplesmente tornar-se um deserto cósmico, cheio de fósseis, silencioso e esquecido, como Marte. Um mundo esperando que outra civilização, que pode jamais surgir, decifre os nossos códigos e compreenda o que fomos.

Durante muito tempo, o antropocentrismo foi compreensível. Era natural imaginar que tudo girava em torno de nós, traduzindo o universo à nossa imagem e semelhança. Tentamos humanizar a natureza, como se o Sol existisse apenas para nos aquecer e as florestas apenas para nos servir. Por séculos, acreditamos que a Terra era o centro do universo. E nos iludimos com essa sacralização da vida humana.

Então veio a ciência, como uma tocha capaz de iluminar a caverna escura da ignorância. Mas preferimos apagar sua luz, substituir o esclarecimento por sombras densas de negação e preconceito. Rejeitamos o pensamento crítico, abraçamos dogmas, e nos apegamos a conservadorismos tacanhos. Criamos armas capazes de provocar o Armagedom sem precisar de cataclismos celestes. Somos nós mesmos os arquitetos da destruição.
Poluímos rios, devastamos florestas, envenenamos o ar e o solo, esgotamos os recursos que nos sustentam. Corroemos, como vermes, as entranhas do planeta que nos abriga. Ignoramos os alertas que a natureza nos dá: calor no inverno, frio no verão, secas, enchentes, pandemias… No entanto, seguimos acreditando que tudo está sob nosso controle.

Ainda assim, insistimos em nos considerar superiores, racionais, senhores do mundo. Mas que racionalidade é essa que destrói o próprio lar? Que inteligência é essa que se autossabota em nome da ganância e da vaidade? Para que tanta arrogância? Para que tanta empáfia? Para quê?

Talvez a resposta esteja no próprio silêncio do cosmos — vasto, impassível e indiferente às nossas (des)ilusões de grandeza. Nele, somos apenas um ponto de poeira. E ainda assim, teimamos em achar que somos estrelas.

(*)Marcos Martino é alvinopolense, ativista cultural e compositor