(*) Paulo Roberto Reis
A década de 2020 não tem sido muito benéfica para mim. Iniciei 2020 tendo um princípio de infarto que me levou a ficar quase uma semana internado e passando por exames no Biocor Belo Horizonte. Logo no início de 2021, fui acometido pela Covid-19, ficando internado e depois acamado em casa, de março a novembro, com respiração mecânica. Depois disso foram três ou quatro dengues, gripes violentas, dentre outras enfermidades.
Por tudo que já tinha passado, nunca pensei que teria câncer. E é aí que chego a pensar que o título acima está errado, na realidade não tenho câncer, o câncer é que me tem. Ele começou a mostrar sua presença em junho de 2024, em forma de uma infecção generalizada, que me levou a ser internado por uma semana, sem que se descobrisse o motivo.
Fui submetido a todo tipo de exames médicos, laboratoriais e de imagem, até que em finais de outubro comprovou-se a neoplasia maligna. Encaminhado para Itabira, levou-se mais um tempo para se definir a localização e o tipo da neoplasia. Em princípio, pensamos no câncer mais comuns nos homens, o câncer de próstata, mas não. O câncer que me tem é diferente. É raro, um tal de Linfoma Não Hodgkin de Células T, com um fator T que o torna mais agressivo.
Ao tomar posse de mim, esse câncer provocou mudanças de hábitos. Parei com a minha cerveja e a Maria Andante dos fins de semana. Não tenho saído às sextas para ver o meu querido Rominho cantar, ainda não conheço o novo Boteco do Braga etc. São várias outras situações que se tornam impossíveis para quem passa por esse mal. Vida sexual? A deformação pélvica afasta a libido e o interesse sexual é zero.
Estou em tratamento intensivo desde março, com quimioterapia e outros medicamentos. Estava indo muito bem, a cada exame, os resultados cada vez melhores, o que indicava a diminuição do mal. Parei de emagrecer, ao contrário, comecei a adquirir mais massa muscular, sentindo-me mais fortalecido a cada dia e, depois da sexta quimio, ficou decidido que o tratamento passasse para radioterapia, que seria menos agressiva e direcionada para pontos específicos.
Os exames realizados no começo de julho indicavam para esse horizonte e claro, eu estava bastante feliz com essa evolução. Como dizem que a alegria de pobre é de curta duração, ao realizar novos exames no fim de agosto para começar a radioterapia, o fator T, mostrou a sua força e derrubou todo o tratamento que havia sido realizado de março a julho. O câncer retornou com força total, como se nunca tivesse ido embora. O resultado é que terei que retornar ao tratamento inicial de quimioterapia, agora mais intenso, para tentar voltar aos indicadores de julho.
É claro que não tem sido fácil, mas não perco a fé. Quando o astral fica baixo, posto umas brincadeiras no Facebook, brigo com o meu Galo, etc. Tenho consciência de que sou o principal agente da minha luta. Sei que se baixar a cabeça, o câncer tomará conta de vez e aí não tem jeito. Não sou dramático, mas, principalmente, por lidar a vida inteira na área de saúde, sei, com certeza, pelo que estou passando.
Não tenho esperanças de cura, mas tenho esperanças e lutarei para prolongar o máximo possível a minha permanência aqui. Com qualidade de vida, vendo minhas séries e filmes, lendo os meus livros, falando sobre política e futebol. Entre os meus objetivos está trabalhar na campanha do meu amigo Fabrício Lopes para deputado no próximo ano. Não garanto presença em 2028, mas no próximo ano estaremos juntos. De uma coisa tenho certeza e isso não me preocupa nem um pouco: não sei se morrerei de câncer, mas sei que morrerei com câncer. O importante é prolongar e viver bem esse tempo!
(*) Paulo Roberto Reis é monlevadense, professor, ex-secretário de Saúde de João Monlevade (e atleticano que não desiste nunca).

