(*) Wir Caetano

– Zenzile Makeba Qgwashu Nguvama Yiketheli Nxgowa Bantana Balomzi Xa Ufun Ubajabulisa Ubaphekcli Mbiza Yotshwala Sithi Xa Saku Qgiba Ukutja Sithathe Izitsha Sizi Cabe Singama Lawu Singama Qgwashu Singama Nqamla Nqgithi.
– Quê?
– O nome africano de Miriam Makeba.
Ana olhou para mim, os dois olhos transformados em duas interrogações. Era a primeira vez que saíamos juntos. Ela é motorista de ônibus de uma linha que liga bairros periféricos de João Monlevade.
– Então, Aninha, Miriam Makeba foi uma ativista negra e cantora sul-africana que fez muito sucesso no Ocidente nos anos 1960 e 1970. Essa série de palavras era o nome africano de Miriam. Ela o revelou assim, palavra a palavra, em uma carta escrita ao editor da “Time” em 1960, ao pedir a correção de seu nome em uma matéria publicada na revista norte-americana.
– Hhhhuuuummmm…! Você é sabido, hein, suspirou Ana.
– Nadinha. Não sei dirigir um ônibus.
– “Tá”. Mas o que esse “nomão” tem a ver com a Praça do Povo?
– Acho que você não vem muito aqui para o Centro, mas deve saber que esses nomes escritos no muro desse patrimônio popular que é a Praça do Povo são de pessoas que trabalharam escravizadas para o francês João Monlevade. Ajudaram a fundar a cidade. E a praça agora guarda essa memória.
– Ah….
– Mas note que a maioria dos nomes grafitados aqui são incompletos, só têm o prenome. Há outro detalhe: são nomes em português, aqueles que esses trabalhadores receberam no Brasil ao serem batizados. Alguns nasceram brasileiros mesmo, é verdade, mas outros eram africanos. É aí que entra a carta de Makeba!
– Hummm….
– Pois é, Ana. No caso dos africanos, quais seriam os nomes que receberam de seus pais?
– Mas me diga uma coisa: você falou tanto em nomes completos, mas, quanto ao seu, só me disse até agora que todo mundo o conhece como “Pai Preto”.
– Vamos lá: “Lusungama ….”.
– Quê?
– Melhor você se sentar neste banco aqui da praça e ligar o gravador de celular para registrar o nome todo, hahaha. E o seu completo qual é mesmo?
– Ana Paula da Silva. Sou apenas uma periférica loura.
– Bom, mas, além do fato de muçulmanos norte-africanos terem dominado parte da Europa, incluindo a Península Ibérica, durante séculos e séculos, pesquisas apontam que também os brancos vieram da África.
– Uai, então devo ter também um nome africano com dezenas de palavras.
– E as suas dezenas e as minhas devem se encontrar em algum lugar, Ana.
– Por falar em lugar, está na hora de eu voltar ao coletivo. Itinerário: Periferia… Hã? Ah, certo: Periferia, nome incompleto do quilombo.

(*) Wir Caetano é letrista de música, poeta e jornalista. É um dos coordenadores do projeto Migrações/Migrazioni (conexão musical Brasil/Itália). Dedica-se também à fotografia.