(*)Mário Ananias

Após um dia exaustivo, preparando-me para uma noite de autógrafos do novo livro Sobre Viver Com Pólio II, a apresentação começou. Seria um evento simples, uma apresentação de dois ou três minutos. Depois, durante o coquetel, receber as pessoas e fazer, para aqueles que adquiriram um exemplar, a dedicatória.
Minha esposa e companheira, atenta a tudo, muito mais que eu, comentou em tom confidencial: “- Acho melhor você se sentar um pouco. Quer um copo de água?”. Respondi que estava bem e, realmente, me sentia bem-disposto e pronto para seguir por um bom tempo ainda a maratona daquele dia. Mas o passar dos dias tem suas especificidades, como bem observado por Reginaldo Bessa na canção “O Tempo” (1978): O tempo não é, minha amiga, aquilo que você pensou…
Ainda que a mente se mantivesse vívida e atenta, os sinais que o corpo emitia e que ela, pela convivência de um quarto de século, percebesse e ligasse seu alerta de zelo e cautela.
Uma senhora sorridente se aproximou com o livro na mão para o devido autógrafo e perguntou a minha idade. Não sem antes se desculpar pelo que ela considerou intromissão. A informação já era pública, desde o primeiro livro, então, não me incomodou de forma alguma e respondi, retribuindo seu sorriso. Pareceu-me, após alguns minutos de conversa, que ela havia esperado para ser a última a pedir o autógrafo. Dessa forma, teria mais tempo para um bate-papo sem a pressa de ceder o lugar a outros.
Quando a simpática senhora se afastou, minha esposa me estendeu, com um sorriso encantador, a mão com o copo de água. E ficou me observando como se me visse pela primeira vez. Perguntou se eu percebi que fiquei conversando por quase meia hora com aquela senhora e eu me assustei. Pensei que tivessem sido apenas uns poucos minutos: “Por que não interrompeu?” perguntei atônito. E ela respondeu que achou melhor não, porque lhe pareceu o único momento de relaxamento que observou em mim durante todo o dia.
Há pessoas com essa capacidade de exalar bondade, de arrancar de nosso corpo, com toda a delicadeza e sem que percebamos, o peso dos excessos, o fardo dos anos, as dores de tantas batalhas.
Procurei entre os convidados, aquela figura delicada com quem conversei há pouco e não mais a vi. Mas ficou uma sensação boa de que tenho muito a agradecer. As PcD, segundo estudos comparativos, vivem, no geral, em média de 13 a 20 anos menos que outras pessoas. Dependendo do grau de deficiência, do nível de renda e do Índice de Qualidade de Vida em que se enquadrem. Próximo dos 70, razoavelmente ativo e, além da própria sequela de pólio, poucos problemas de saúde. A disposição física já não é a mesma, mas leio sem óculos, sou independente. E sou agraciado diariamente com a companhia de uma bela mulher que optou por mim. E ainda encontro quem se dispõe a ficar até o fim de um evento para conversarmos um pouco.

(*) Mário Ananias é monlevadense, servidor público, escritor, palestrante e autor dos livros: Sobre Viver com Pólio I e II.
Contato: mariosrananias.com.br/