Sou de um tempo em que meninos andavam apenas com cabelo curtinho, tipo aquele formato tão presente em soldados. Falando assim parece que sou bem antigo, da época de guaraná com rolha. Se você conhece a expressão, é bem certo que você também seja antiga(o).
Eu não tenho problemas com a ideia de me parecer velho ou de ouvir isso. Os prateados andam comigo e gosto até de dizer que sou do século passado, mais especificamente do ano de 1978. E exatamente por pertencer à comunidade daqueles que vivenciaram a virada do século, penso que quanto mais velho o vinho…Bom, você já compreendeu.
Gosto de cabelos grandes porque são bonitos, transformam o rosto das pessoas e o enaltece.
Particularmente assumi os meus cachos quando estudava na cidade de Mariana. O ano talvez seja 2012. A universidade foi um lugar transformador para a minha descoberta enquanto homem negro. Não é regra, mas foi a minha experiência. E, ao passar pelo processo de transição, vieram críticas de todos os lados.
– E esse cabelo, hein, falou na avenida um senhor que no passado foi meu gestor. E eu respondi:
– O que que tem?
– Eu gosto bem dele.
O rapaz não teve coragem de criticá-lo de forma aberta. Em outro momento, ouvi:
– Está na hora de cortar o cabelo, provocou um familiar.
– Não.
São apenas dois exemplos para pensarmos como o estereótipo de beleza está na entranha das relações pessoais.
E um cabelo com tranças? Embora seja bem mais aceito agora que no passado, vira e mexe é alvo de comentários racistas. Hoje assistimos à diversidade do cabelo afro na televisão. Homens e mulheres exibem os cachos e as tranças porque vivemos um novo tempo.
Mesmo assim, na escola, ouvimos relatos de pequenos que foram chamadas de cabelo de bombril. Parou para pensar o quanto isso busca tirar a “humanidade da pessoa”? Em situações semelhantes a esta, o caminho não é dizer “vai brincar porque o seu cabelo não é isso”. Outra direção deve ser assumida, a da problematização que pode gerar acolhimento, reflexão, estudo e intervenção pedagógica sobre o que foi posto em pauta. Alguns bons livros de pessoas negras e ativistas pretos locais podem auxiliar a quem deseja e necessita de parâmetros para agir.
Numa época estava bem feliz com as minhas tranças. Acho que estava inspirado com a leitura do livro “Ei, você”, de Dapo Adeola.
Mas a gente não costuma ter um dia de paz. Na loja esperava ser atendido, enquanto acompanhava no fundo do estabelecimento o desenrolar dos funcionários com seus clientes. Um deles terminou a demanda e veio em minha direção. O homem passou por mim no balcão e se dirigiu para outra pessoa não negra.
Talvez os não negros não tenham consciência sobre o impacto do racismo em nossas vidas e mesmo os bem-intencionados, não conseguem alcançar o sentimento de desprezo gerado em razão do tom da pele, vestimentas e cabelo.
Preciso dizer que o cabelo afro é lindo sem a necessidade de malabarismo etnocêntrico. E obras literárias como “Meu Crespo é de Rainha” (Bell Hooks), “Amor de cabelo” (Matthew A. Cherry) e “Com qual penteado eu vou?” (Kiusam de Oliveira) são necessárias na escola e nos lares.
Ignorar o racismo ou postergar ações que o combatam não são propostas pedagógicas para a educação antirracista. Afinal, nesses tempos não é possível dizer que desconhecemos a importância da cultura africana e afro-brasileira (lei federal 10.639/2003).
O nosso cabelo é motivo de orgulho. Não é moda ou estética. É um ato político que diz, sem dizer em voz alta. Mesmo diante das tentativas de apagamento da memória como projeto de nação e do branqueamento da população no passado, o nosso cabelo evoca África. Nossa existência é resistência contra o racismo estrutural e institucional que nos atravessa violentamente por palavras, visões estereotipadas e tentativas de silenciamento. (Re) Existimos!
Gláucio Santos é educador étnico-racial, professor da educação básica e jornalista. Mestre em Educação.

