No próximo domingo, 31 de agosto, a ArcelorMittal Usina de João Monlevade completa 90 anos. A Mina do Andrade e a Usina, ambas fundadas em 1935, possuem grande relevância social e econômica, principalmente para as cidades de Bela Vista de Minas e João Monlevade, onde estão instaladas respectivamente.
A Mina do Andrade tem toda a sua produção voltada para o abastecimento exclusivo da usina de João Monlevade – produtora de aços especiais para a indústria automobilística, mercados de fixadores, molas, esponjas de aço, correntes, entre outros. A planta minerária conta com produção anual de 1,5 milhão de toneladas de sinter feed, o minério de ferro mais utilizado pelas siderúrgicas, obtido por beneficiamento.
Já a Usina de Monlevade, abastecida pelo minério de Andrade, é uma das principais plantas siderúrgicas do Brasil, pois possui como característica principal a produção de aços especiais, entre eles o aço utilizado para a produção de cordoalhas aplicadas na fabricação de pneus (steelcord). Neste segmento a ArcelorMittal Monlevade é a única produtora no país. A unidade ainda produz aços para vários outros segmentos como molas, cabos diversos, mangueiras para extração de petróleo, cordoalhas para concreto protendido, arames para aplicações agropecuárias, lãs e palhas de aço, fixadores em geral, arames para solda, eletrodomésticos e outros. Confira um pouco desta história de aço e de grandes transformações.

A trajetória da Usina de Monlevade se confunde com a própria história da industrialização do Brasil. O projeto, que hoje é sinônimo de inovação e desenvolvimento, começou a ganhar forma ainda na década de 1920, num cenário de grandes transformações políticas e econômicas no país.


Em 1920, o rei Alberto I da Bélgica visitou o Brasil em missão oficial. A convite do então governador de Minas Gerais, Arthur Bernardes, o monarca conheceu Belo Horizonte e foi recebido com todas as honras. Bernardes tinha um objetivo claro: evidenciar o potencial siderúrgico mineiro e sensibilizar o rei para que estimulasse investidores europeus a direcionarem seus negócios também para Minas.

Pouco tempo depois, a estratégia deu resultado. O grupo belgo-luxemburguês Aciéries Réunies de Burbach-Eich-Dudelange (Arbed) enviou uma missão técnica, chefiada pelo próprio cofundador e presidente Gaston Barbanson ao estado e viu a possibilidade de se associar a uma empresa já existente, ampliando seus investimentos.


Em 11 de dezembro de 1921, a Companhia Siderúrgica Mineira aprovou em assembleia o aumento de capital, que passou a ser subscrito pela Arbed. Nascia, assim, a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, responsável por um dos maiores saltos industriais do país.
O primeiro passo foi transformar a usina de Sabará em um projeto piloto, para testar matérias-primas nacionais, treinar trabalhadores e desenvolver tecnologia própria. Paralelamente, representantes da Arbed adquiriram a antiga fazenda de Jean Monlevade, em São José do Piracicaba, área que incluía as ruínas da antiga fábrica de ferro e a riquíssima Mina do Andrade. O local já era visto como ideal para a construção de uma nova usina.


O caminho, no entanto, não foi simples. Entre 1926 e 1927, a usina de Sabará enfrentou sérias dificuldades, chegando a paralisar atividades. A situação era tão delicada que se cogitou encerrar os negócios no Brasil. Para reverter o quadro, a Arbed enviou o jovem engenheiro luxemburguês Louis Ensch, que apontou soluções e defendeu a modernização do parque industrial. Com novos equipamentos e melhoria da qualidade do aço produzido, a Belgo-Mineira retomou seu crescimento.

Nos anos 1930, o cenário mudou radicalmente. O país vivia o fortalecimento da indústria nacional, incentivada pelo governo de Getúlio Vargas. Em visita a Minas, em 1931, o presidente se comprometeu a viabilizar uma ligação ferroviária entre a Estrada de Ferro Central do Brasil e a Vitória a Minas. Essa era a infraestrutura essencial para tirar do papel o projeto da usina em Monlevade.


Finalmente, em 31 de agosto de 1935, duas cerimônias históricas aconteceram no mesmo dia: a inauguração do ramal ferroviário de Santa Bárbara e o lançamento da pedra fundamental da nova Usina, nas terras onde um século antes, aportou Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade. Estava consolidado o empreendimento que se tornaria referência na siderurgia brasileira: a Usina de Monlevade.

Hoje, nove décadas depois, a usina que integra o grupo ArcelorMittal continua sendo um dos maiores símbolos da industrialização de Minas e do Brasil. Mais do que uma fábrica de aço, Monlevade representa trabalho, inovação e desenvolvimento, mantendo vivo o legado de uma história iniciada há 90 anos.