Em entrevista ao A Notícia, o diretor da ArcelorMittal – Unidade de Monlevade, Fabiano Cristeli, revela como a Usina se reinventa diante dos desafios globais e reafirma seu papel estratégico para a região e para o Brasil
A ArcelorMittal completa 90 anos de operação em Monlevade. Como a Usina chega a essa marca histórica?
De 1935 até hoje, considero que a Usina de Monlevade se tornou sinônimo de inovação, resiliência e compromisso com o desenvolvimento industrial não só da região, mas do Brasil. Ao completar 90 anos de operação, a ArcelorMittal Monlevade chega a esse marco como protagonista na siderurgia brasileira, sendo referência na produção de aços longos, principalmente os aços especiais. Ao longo de quase um século, a usina tem passado continuamente por modernizações de equipamentos e processos, com foco em sustentabilidade e segurança. Essa busca incessante por excelência faz com que a ArcelorMittal Monlevade mantenha a qualidade de seus produtos e a competitividade no mercado global ano após ano.
E o que o futuro reserva para a Usina de Monlevade? Ele já começou?
No setor do aço atual, o que temos visto é uma competitividade cada vez maior e um ambiente em constante transformação, com novas soluções e tecnologias surgindo a todo momento. Isso exige que as organizações direcionem esforços contínuos para inovação, pesquisa e desenvolvimento, justamente para se manterem relevantes e competitivas.
Um bom exemplo disso é a rapidez com que a Inteligência Artificial tem sido incorporada ao nosso cotidiano — não só no dia a dia das pessoas, mas também de maneira muito expressiva na indústria. Esse movimento deixa claro que o investimento nessas áreas não é mais uma opção, e sim uma necessidade estratégica para acompanhar as demandas do mercado e promover um crescimento sustentável.
Qual é o raio-x da Usina hoje?
A ArcelorMittal Monlevade é uma usina integrada no segmento de Aços Longos e atua principalmente no mercado de aços para a fabricação de fio-máquina para aplicações especiais. Nossa principal matéria-prima, o minério de ferro, é extraída da ArcelorMittal Mina do Andrade, em Bela Vista de Minas, que alimenta nossa sinterização. O sínter produzido vai para o alto-forno, onde fabricamos o ferro gusa que, junto com sucata, vai ser transformado em aço na nossa Aciaria. Os tarugos, que é o aço sólido em forma de barras, vai para nossos laminadores, onde fabricamos o fio-máquina. Nossa capacidade atual de produção é 1,2 milhão de toneladas de aço e 2,2 milhões de toneladas de fio-máquina por ano. A produção da unidade de Monlevade é destinada ao mercado nacional, clientes internacionais e trefilarias da ArcelorMittal Aços Longos.
Atualmente, são fabricados mais de 100 diferentes aços na Aciaria de Monlevade, destinados a produtos como molas, cabos diversos, mangueiras para extração de petróleo, cordoalhas para concreto protendido, arames para aplicações agropecuárias, lãs e palhas de aço, fixadores em geral, cordoalhas para fabricação de pneus, componentes automotivos, arames para solda, eletrodomésticos e outros. Embora todo o aço saia da Usina em forma de bobina de fio-máquina, o aço feito em Monlevade está em diversos produtos que utilizamos no dia a dia. Atualmente, geramos cerca de 1.100 empregos diretos.
Nessa trajetória, nem tudo saiu como o esperado. Por exemplo, em 2021, o então presidente da ArcelorMittal Brasil, Jefferson de Paula, anunciou a duplicação da Usina de Monlevade. No entanto, o projeto foi cancelado em fevereiro deste ano. Como a unidade recebeu e trabalhou esse fato?
A unidade de Monlevade teve o projeto de duplicação cancelado em função de redirecionamento estratégico dos investimentos do grupo ArcelorMittal no Brasil. Após uma reavaliação das condições e oportunidades de mercado, a empresa optou por concentrar seus esforços na modernização, inovação e aumento da competitividade do parque industrial existente. A unidade de Monlevade mantém sua importância estratégica para os negócios da ArcelorMittal no Brasil, atuando como referência no mercado de aços especiais e sendo a única planta no país a produzir steel cord para o setor automotivo.
De que forma o cancelamento afetou a unidade? Alguma melhoria/obra foi aproveitada?
Em linha com a estratégia da empresa de ampliar o fornecimento de produtos de alto valor agregado, o Laminador 3, que era parte do projeto inicial, já havia sido entregue e entrado em operação em 2022, duplicando a capacidade de produção de laminados da planta. Além dele, outros investimentos realizados na unidade, como obras de construção civil, também já resultaram em melhorias de infraestrutura, eficiência operacional e segurança. A empresa continuará investindo e contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico do município e da região.
Como a Usina trabalha para se manter competitiva?
Consideramos alguns pilares de competitividade. O primeiro, a valorização das pessoas, com uma equipe engajada e especializada e, sobretudo, investindo em um ambiente de trabalho diverso e seguro. O minério da Mina do Andrade, de alta qualidade, também é outro fator importante, assim como a confiabilidade das operações, processos e equipamentos, evitando paradas não programadas e a produção de aços de alto valor agregado com parcerias de longo prazo com clientes. Ainda podemos destacar a sustentabilidade, projetos de eficiência energética e investimentos em inovação.
Que medidas foram implantadas nos últimos anos para aprimorar a produção?
A Usina de Monlevade sempre se destacou ao longo dos seus 90 anos pela inovação de processos e o pioneirismo. Foi assim com a primeira Sinterização da América Latina, em 1948, depois com trem contínuo para fio-máquina, Aciaria LD e o lingotamento contínuo de tarugos, por exemplo. Em 2022 colocamos em operação o Laminador 3, que tem performance superior em termos de rendimento, produtividade e qualidade. É um laminador de duas linhas com 28 cadeiras de laminação e elevado nível de automação.
Aprimoramento da produção também significa segurança e meio ambiente também. O mais importante atualmente é a busca pelo zero acidente em todas as nossas operações. Assim temos investido fortemente em melhorias na segregação entre pessoas e máquinas, na operação remota e no treinamento de nossos profissionais. Um exemplo de investimento em segurança é a nova passarela de entrada e saída na Portaria Central.
Estamos investindo também em melhorias ambientais, como o desassoreamento da Hidrelétrica do Jacuí (PCH Piracicaba), tratamento de efluentes e reaproveitando 100% dos resíduos industriais. Outra grande iniciativa ambiental que está em andamento é a troca do principal sistema de despoeiramento da Aciaria, investimento de cerca de R$230 milhões, com conclusão prevista para o primeiro semestre de 2026. Essas modernizações e implantações de novos equipamentos são constantes na empresa, com o objetivo de manter produtividade, competitividade e sustentabilidade do negócio.
A política tarifária dos Estados Unidos, especialmente, as medidas de Donald Trump contra o aço brasileiro, trouxe impacto para a produção local?
A ArcelorMittal Brasil acompanha com atenção os efeitos da elevação para 50% da tarifa de importação de aço pelos Estados Unidos. A medida aumenta a instabilidade em um mercado global já desafiador. A empresa reafirma sua convicção de que o diálogo é o melhor caminho para as negociações entre os governos brasileiro e norte-americano e defende a retomada do acordo de cotas de exportação de aço para o mercado dos Estados Unidos. A companhia segue avaliando o cenário para orientar seus investimentos no país, que dependem de isonomia competitiva e de avanços nas relações comerciais externas.
Quais são os atuais desafios da Usina de Monlevade?
O principal desafio interno da unidade está em tornar o ambiente industrial cada vez mais seguro para as pessoas que aqui trabalham. Garantir a integridade física dos colaboradores é prioridade máxima, sendo que isso requer investimentos constantes em treinamentos, modernização de equipamentos, aplicação rigorosa de normas e uma cultura de segurança enraizada no dia a dia. O segundo desafio é a competitividade do setor do aço. Para a ArcelorMittal Monlevade permanecer competitiva e rentável, é necessário investir continuamente em inovação, otimizar processos produtivos, reduzir custos e ampliar a qualidade dos produtos.
Outro aspecto entre os desafios atuais é a sustentabilidade ambiental. A unidade tem buscado melhorar continuamente seus sistemas de monitoramento, com tecnologia de ponta para acompanhar as emissões e garantir o cumprimento dos padrões legais e ambientais. Um exemplo concreto desse compromisso é o investimento em andamento na troca do principal sistema de despoeiramento da Aciaria, equipamento fundamental para o controle da emissão de partículas no processo de produção do aço. Esse novo sistema, previsto para ser concluído em 2026, representa um avanço significativo na mitigação de impactos ambientais, contribuindo para a qualidade do ar e para o bem-estar da comunidade local.
Que mensagem gostaria de deixar para os empregados e para a comunidade?
Ao celebrarmos os 90 anos da Usina de Monlevade é impossível não reconhecer a profunda ligação construída entre a empresa, seus empregados e toda a comunidade local. Essa história conjunta não é feita apenas de aço, mas também de sonhos realizados, conquistas coletivas e uma parceria sólida que atravessou gerações.
Desde o início de nossas atividades, a cidade de João Monlevade e a ArcelorMittal trilham caminhos entrelaçados. A operação da unidade não só impulsionou a economia da cidade, gerando receitas e movimentando negócios locais, mas também abriu portas para milhares de empregos, oportunidades e desenvolvimento profissional. São laços familiares e trajetórias pessoais que se confundem e se fortalecem ao longo do tempo, refletindo a evolução de uma cidade que cresce ao lado da indústria.
Nosso compromisso social vai além. Por meio da Fundação ArcelorMittal, temos investido de forma contínua em projetos educacionais, culturais e sociais, promovendo inclusão, cidadania e qualidade de vida para todas as pessoas. Esses investimentos contribuem para um futuro mais justo, solidário e cheio de possibilidades para João Monlevade.
Quero agradecer e parabenizar cada trabalhador, incluindo as várias gerações que passaram pela Usina, as empresas parceiras e seus funcionários, lideranças e habitantes da cidade que, com empenho e dedicação, ajudaram a escrever essa linda história de 90 anos. Essa celebração é de todos — representa a força da comunidade, o compromisso com o desenvolvimento e a esperança de um amanhã ainda mais promissor. Que sigamos juntos, inovando, investindo e colaborando, para que João Monlevade continue sendo referência de crescimento, dignidade e oportunidades para todas as gerações. Parabéns pelos 90 anos e rumo aos 100 anos.



