Dom Francisco Cota de Oliveira, nomeado pelo papa Leão XIV para assumir a Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, está entre os mais de 50 bispos e arcebispos, de várias regiões do país, que assinaram uma carta aberta com críticas às propostas políticas atribuídas a Flávio Bolsonaro (PL).
Sem citar nomes, eles afirmam que uma das candidaturas “ameaça frontalmente a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”. O documento lista problemas que enxergam no candidato que “sempre foi contra o fim da escala 6 x1”, “que promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA)”, que “promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu governo” e que “não reconhece a crise climática e nega os problemas ecológicos”.
Intitulado “Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026”, o documento foi divulgado na quinta-feira (22) e ganhou repercussão nacional após publicação na coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Até a manhã desta sexta-feira (23), 56 bispos e arcebispos de diferentes regiões do país haviam assinado o manifesto, que permanece aberto a novas adesões.
Os bispos afirmam que o cenário eleitoral exige posicionamento público em defesa dos princípios do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja Católica. Na abertura, os religiosos citam a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, para sustentar que há situações em que não é justo permanecer neutro. Segundo o manifesto, uma das candidaturas representa ameaça a princípios centrais da Doutrina Social da Igreja, à democracia, à soberania nacional e ao bem comum.
Trabalho, pobreza e soberania
Entre os pontos abordados está a pauta trabalhista. Os bispos criticam a posição contrária do candidato ao fim da escala 6×1 e a proposta de pagamento por hora trabalhada. Para os signatários, essas medidas desconsideram a dignidade dos trabalhadores, o direito a uma remuneração suficiente e a participação na vida social.
A carta também questiona propostas relacionadas à política externa e à exploração de recursos naturais. Os religiosos afirmam que o candidato defende uma relação de submissão do Brasil aos Estados Unidos, mencionam uma suposta articulação para taxar produtos brasileiros e criticam o apoio à intervenção estrangeira nas eleições. O texto manifesta ainda preocupação com a possibilidade de exploração de terras raras brasileiras por interesses norte-americanos.
No campo social, os bispos criticam o histórico do partido de Flávio Bolsonaro em relação aos programas de combate à pobreza. Embora reconheçam que o candidato tenha declarado intenção de manter alguns programas sociais, os signatários consideram que posições historicamente contrárias a essas políticas entram em conflito com a opção preferencial pelos pobres, princípio central da doutrina católica.
Armas, meio ambiente e democracia
O acesso a armas de fogo é outro tema do manifesto. Com base na Doutrina Social da Igreja, os religiosos defendem o desarmamento e criticam a promessa de ampliar o acesso da população a armamentos, relacionando essa posição às políticas adotadas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na área ambiental, a carta defende a ecologia integral e acusa o candidato de negar a crise climática e os problemas ecológicos. Os bispos também criticam a possibilidade de continuidade de políticas ambientais do governo anterior e mencionam a Lei nº 15.190/2025, chamada no documento de “Lei da Devastação”.
O manifesto dedica ainda dois pontos aos direitos humanos e às instituições democráticas. Os signatários afirmam que um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e mencionam homenagens de integrantes de sua família ao general Brilhante Ustra, reconhecido por sua atuação como torturador durante a ditadura militar brasileira.
Em relação à democracia, os religiosos demonstram preocupação com declarações que, na avaliação deles, ameaçam a ordem constitucional. A carta associa esses riscos ao histórico político de Jair Bolsonaro e às ideias defendidas por seu filho, alertando para a possibilidade de concentração de poder e de subordinação das instituições a interesses ideológicos.
Comparação entre as candidaturas
Ao estabelecer um contraponto, os bispos reconhecem que a candidatura de Lula também está sujeita a críticas, mas afirmam que o atual presidente demonstrou responsabilidade com os pobres e com a preservação ambiental, além de ter atuado dentro dos limites da ordem democrática e da Constituição. “Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirma um trecho do documento.
Na conclusão, os signatários convocam os católicos a participar do segundo turno, marcado para domingo (25), e defendem que o voto considere os princípios éticos e sociais da Igreja. O manifesto alerta para os riscos de retrocessos democráticos e recorre às experiências autoritárias do século XX para reforçar a necessidade de posicionamento.
A carta termina com um apelo para que os eleitores votem “em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja”, além de pedir a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Leia o texto na íntegra:
CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026.
22 de outubro de 2026
O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8)
O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (216).
Nós, bispos católicos de diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI).
“O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos” (Rerum Novarum, 15). O católico e a católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto à luz de seus ensinamentos. Devem deixar “que o Evangelho […] avalie as estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e próprias ‘estruturas de pecado’, para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)
Duas candidaturas estão colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças.
Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.
As mudanças tecnológicas do mundo atual “não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social” (Magnifica Humanitas, 37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema.
“A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir […]. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.
A exortação apostólica Dilexi Te (Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que “seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza” (114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja.
A DSI propõe o desarmamento e diz que “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508). Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo.
O cuidado com a Ecologia Integral é hoje elemento central da DSI. A Laudato si’ critica “as atitudes que barram os caminhos de solução” que “vão da negação do problema à indiferença” (14). Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso. Lembremo-nos da “Lei da Devastação” (nº 15.190/2025) aprovada no ano passado.
“O discípulo de Cristo rejeita todo recurso [à tortura], de modo algum justificável” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 404). Um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e sua família fez homenagens a um dos maiores torturadores da ditadura brasileira, o general Brilhante Ustra, que matou muitas pessoas.
“A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia […]; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos” (Centesimus Annus, 46). Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia.
Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja.
Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes.
Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.
Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ilumine a mente de cada um e cada uma de nós.


