(*) Soraya Miller

A mudança da escala de trabalho no Brasil representa uma transformação significativa nas relações entre empregadores e empregados. A redução progressiva da jornada de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de repouso e manutenção dos salários, desperta expectativas de melhoria na qualidade de vida. Entretanto, uma medida dessa dimensão exige uma análise que ultrapasse o discurso social e considere seus efeitos sobre a economia, o emprego e a capacidade de adaptação das empresas.

É inegável que o descanso, a convivência familiar e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional são importantes. Mas será que trabalhar menos horas significa, necessariamente, viver melhor? A qualidade de vida também depende de renda, estabilidade no emprego, poder de compra e oportunidades de crescimento.

Sob a perspectiva empresarial, os desafios são concretos. A manutenção dos salários com a redução da jornada de 44 para 40 horas representa um aumento matemático de 10% no valor da hora trabalhada. Embora isso não signifique, automaticamente, uma elevação equivalente da folha de pagamento, poderá pressionar os custos das empresas que precisam preservar sua capacidade produtiva e seus horários de funcionamento.

No comércio, na indústria e nos serviços, a reorganização das escalas poderá exigir novas contratações, pagamento de horas extras, investimentos em tecnologia e revisão de processos. Para os pequenos negócios, que frequentemente operam com equipes reduzidas e margens apertadas, essa adaptação poderá representar um desafio ainda maior.

Surge, então, uma questão fundamental: quem realmente suportará os custos dessa transformação?

Parte desses impactos poderá ser absorvida por ganhos de produtividade e eficiência. Entretanto, quando isso não for possível, poderão ocorrer repasses aos preços, redução das margens de lucro e maior cautela nas contratações. São consequências possíveis que merecem atenção, especialmente em uma economia na qual muitos empreendedores já enfrentam dificuldades para manter suas atividades.

E os trabalhadores? Embora a redução da jornada possa proporcionar mais tempo livre, não existe garantia de que isso se traduza, isoladamente, em melhores condições de vida. A necessidade de manter a produtividade em menos horas poderá intensificar as atividades, enquanto eventuais aumentos de preços poderão comprometer parte do poder de compra das famílias. Da mesma forma, empresas com dificuldades para absorver os novos custos poderão rever seus planos de expansão e contratação.

Isso não significa desconsiderar os possíveis benefícios da mudança. Jornadas menores podem contribuir para reduzir o desgaste, melhorar o bem-estar e estimular a produtividade. Contudo, esses resultados dependem de planejamento, organização, investimentos e das particularidades de cada atividade econômica.

Na nossa região, onde o comércio, a prestação de serviços, a indústria e os pequenos empreendimentos desempenham papel essencial na geração de empregos e renda, essa discussão merece atenção especial. A capacidade de adaptação de uma grande organização não pode ser comparada à de um pequeno estabelecimento familiar, que depende de poucos funcionários para manter suas operações.

O debate também precisa considerar a necessidade de políticas públicas que apoiem a transição, especialmente para micro e pequenas empresas. Não basta estabelecer novas obrigações sem avaliar as condições reais de cumprimento e os possíveis reflexos sobre a competitividade.

É fundamental compreender que a valorização do trabalhador e a sustentabilidade empresarial não são interesses opostos. Empresas economicamente saudáveis geram empregos, renda e oportunidades. Trabalhadores valorizados, por sua vez, são essenciais para a produtividade e o desenvolvimento das organizações.

O verdadeiro progresso nas relações de trabalho não pode ser medido apenas pela redução das horas trabalhadas, mas pela capacidade de proporcionar qualidade de vida, preservar o poder de compra, estimular a produtividade e garantir oportunidades.

Afinal, mudar a legislação é uma decisão. Transformar essa mudança em benefícios reais e sustentáveis para trabalhadores, empresas e sociedade é um desafio muito maior.

 

(*) Soraya Abreu Miller Godoi é contadora, empresária, com MBA em Holding, especialista em planejamento tributário e gestão empresarial, diretora da Contabilidade Miller e integrante da diretoria da Acimon.