A Fundação Casa de Cultura de João Monlevade deverá contar com cerca de R$1,2 milhão a menos no orçamento neste ano, em comparação ao exercício anterior, segundo apuração de A Notícia. Reduções ocorrem em todas as secretarias, em virtude de remanejamento orçamentário do governo municipal, conforme anunciado no ano passado.
Porém, a redução na Casa de Cultura ocorre quando eventos e ações culturais ganham destaque como opções de instrumentos econômicos importantes, especialmente, diante das mudanças trazidas pela Reforma Tributária. A nova medida prioriza o consumo como base de arrecadação tributária municipal.

A transição da Reforma Tributária, iniciada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e prevista para ocorrer entre 2026 e 2033, altera a lógica da arrecadação no Brasil. Com a migração da tributação da produção para o consumo, cidades capazes de atrair visitantes e estimular circulação de renda em seus territórios podem ampliar sua participação no bolo tributário.

Números

Os efeitos já se refletem em dados nacionais, a partir do carnaval de 2026, que movimentou cerca de R$13 bilhões na economia brasileira. Neste ano, foram aproximadamente 65 milhões de foliões em eventos e festas pelo país, um crescimento de 10% em relação ao ano passado.

Em grandes capitais, os números confirmam o peso econômico da folia neste ano. O carnaval no Rio de Janeiro deve ter movimentado cerca de R$5,9 bilhões na economia local, com aproximadamente 8 milhões de participantes nas diversas atividades culturais e turísticas.
Em Salvador, estudos indicam que o carnaval de 2026 atraiu mais de 1,2 milhão de turistas e deve ter movimentado cerca de R$2,6 bilhões, resultado impulsionado por setores como hospedagem, alimentação, transporte e comércio.

Na capital mineira, onde o carnaval ganhou força nos últimos anos, estima-se que a festa também impactou significativamente o setor de turismo e serviços. A projeção é de mais de R$1 bilhão em movimentação econômica durante o período carnavalesco.
Outro exemplo vem de Guarapari, no Espírito Santo. Pesquisa do DataMG realizada durante o Carnaval de 2026 apontou gasto médio de R$363 por turista/dia na alta temporada. Considerando estimativa de 600 mil visitantes, são aproximadamente R$218 milhões circulando em poucos dias. O impacto é direto na hotelaria, alimentação, transporte, comércio e, consequentemente, nos cofres públicos.

Esses números mostram como eventos culturais de grande porte podem impulsionar a economia local, gerando fluxo de visitantes, ocupação hoteleira elevada e maior gasto em serviços e produtos. Esses são fatores que se refletem na arrecadação de tributos ligados ao consumo. “Estudos da economista ítalo-americana Mariana Mazzucato sobre economia criativa indicam que cada R$1 investido em cultura pode gerar retorno superior a R$7 na economia, considerando efeitos diretos e indiretos. Some-se a isso o avanço acelerado da inteligência artificial e da automação ao longo da próxima década, além do debate sobre a possível redução da escala 6×1, com maior valorização do tempo livre”, informa o DataMG

Na região

No contexto regional, cidades como São Gonçalo do Rio Abaixo, Barão de Cocais, Bela Vista de Minas, Nova Era e São Domingos do Prata, por exemplo, também têm apostado em calendários culturais e de eventos para atrair público regional, estimular a circulação de renda e dinamizar suas economias locais. O carnaval nessas cidades atraiu foliões de vários municípios.

Neste cenário, a redução de recursos para a área da cultura em João Monlevade, justamente em um ano de forte impacto econômico, pode comprometer não apenas a oferta cultural da cidade, mas também o potencial de geração de renda e circulação econômica em diversos setores. A diretora presidente da Fundação Casa de Cultura, Nadja Lírio, alertou sobre isso, afirmando que o calendário de ações, como em anos anteriores, pode ficar comprometido.

Segundo o DataMG, com a nova estrutura tributária e o peso crescente do consumo na arrecadação, a capacidade das cidades de promover eventos e atrair visitantes se torna cada vez mais relevante para sua saúde financeira. O debate sobre planejamento e investimentos em cultura e eventos segue em evidência. “A discussão sobre eventos públicos deixa de ser apenas ideológica. Passa a ser estratégica”, informa o instituto.