A Usina de Monlevade completa, em 31 de agosto, 91 anos de uma história diretamente ligada à formação e ao desenvolvimento da cidade. A data marca o lançamento da pedra fundamental do complexo siderúrgico, em 1935. A produção, porém, começou em 1937, quando entrou em operação o primeiro alto-forno.

Nove décadas depois, a unidade que pertence à ArcelorMittal continua sendo um dos principais símbolos da economia local e da siderurgia mineira. A trajetória, entretanto, mudou de direção nos últimos anos. O projeto de expansão anunciado originalmente para quase dobrar a capacidade da planta foi encerrado definitivamente em 2025. A empresa passou a concentrar seus investimentos na modernização, na produtividade, na inovação e na competitividade da estrutura já existente.

A história da usina começou ainda antes da construção do complexo. No início do século XIX, o francês Jean-Antoine Félix Dissandes de Monlevade instalou na região uma forja para produção de ferro. Mais de cem anos depois, a área voltaria a ser escolhida para um grande empreendimento siderúrgico.

A origem da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira está na associação, em 1921, entre a Companhia Siderúrgica Mineira e o grupo europeu ARBED. A empresa iniciou suas atividades em Sabará e passou a estudar a instalação de uma nova unidade em Monlevade.

A escolha do local reunia fatores estratégicos, como a disponibilidade de minério de ferro, a existência da antiga estrutura de produção criada por Monlevade e a possibilidade de ligação ferroviária com outras regiões. A Mina do Andrade, adquirida pela Belgo-Mineira em 1921, também passou a integrar a estrutura de abastecimento de minério da siderúrgica. A exploração da mina começou posteriormente, com produção destinada à unidade de João Monlevade.

Pedra fundamental e início da produção

O projeto avançou na década de 1930, durante um período de forte incentivo à industrialização brasileira. Em 31 de agosto de 1935, o então presidente Getúlio Vargas participou da cerimônia de lançamento da pedra fundamental da usina.

A construção do complexo modificou rapidamente a região. Trabalhadores e técnicos chegaram de diferentes localidades e a companhia passou a criar estruturas de apoio à comunidade, como moradias, escolas, serviços de saúde e equipamentos de lazer.
Em 1937, a usina começou a produzir. A unidade cresceu nas décadas seguintes e se consolidou como uma das principais plantas siderúrgicas do país.

A expansão também transformou João Monlevade. O município passou a desenvolver uma economia fortemente vinculada à siderurgia, enquanto a presença da empresa influenciou a formação urbana, o mercado de trabalho e a vida social da cidade.

Da Belgo-Mineira à ArcelorMittal

A empresa atravessou diferentes transformações no mercado siderúrgico mundial. A Belgo-Mineira passou a integrar a Arcelor após a fusão da ARBED com a Usinor e a Aceralia. Em 2006, a Arcelor se uniu à Mittal Steel, dando origem à ArcelorMittal.

A mudança empresarial não interrompeu o ciclo de investimentos em Monlevade. Um dos maiores projetos foi anunciado em 2007 e previa elevar a capacidade da usina de aproximadamente 1,2 milhão para 2,2 milhões de toneladas de aço bruto por ano. O empreendimento sofreu adiamentos e foi retomado posteriormente. Parte importante do projeto foi concluída com a implantação do Laminador 3, que entrou em operação em 2022, após investimento de cerca de R$800 milhões. O equipamento dobrou a capacidade de produção de laminados da unidade.

A segunda etapa, no entanto, não será realizada. Em fevereiro de 2025, a ArcelorMittal anunciou o cancelamento definitivo da expansão. Segundo a companhia, a decisão ocorreu durante uma revisão da estratégia de investimentos no Brasil, influenciada pelas condições de mercado. A prioridade passou a ser a modernização do parque industrial existente e o aumento da competitividade da unidade.

Novo ciclo de investimentos

O fim do projeto de expansão não significa a interrupção dos investimentos na unidade.
No planejamento divulgado pela empresa, Monlevade permanece contemplada com recursos para modernização e para uma futura reforma do alto-forno. A mudança representa uma nova fase para a unidade. Em vez da ampliação da capacidade prevista no projeto original, o foco passa a ser o aproveitamento da estrutura existente, com investimentos em tecnologia, produtividade, qualidade e eficiência.

A usina também mantém uma posição estratégica dentro do segmento de aços longos. A planta de João Monlevade é a única fabricante brasileira de aço utilizado na produção de cordoalhas para pneus e produz aços especiais destinados, entre outros mercados, às indústrias automotiva e de componentes metálicos.

Aterro Zero

Entre as mudanças mais recentes implantadas na Usina de Monlevade está na agenda ambiental.

Em junho deste ano, a ArcelorMittal anunciou que a unidade de João Monlevade alcançou seis meses consecutivos sem enviar resíduos industriais para aterros. O resultado garantiu à planta o status de Aterro Zero, obtido por meio de iniciativas de economia circular que permitiram o reaproveitamento integral dos materiais gerados na operação.

O resultado também aparece no Relatório de Sustentabilidade 2025 da companhia, que registra Monlevade entre as unidades que alcançaram a marca de Aterro Zero.

A unidade mantém ainda a certificação internacional ResponsibleSteel, voltada a critérios ambientais, sociais e de governança na produção de aço. Monlevade foi uma das plantas brasileiras da empresa certificadas pelo padrão e passou por nova certificação em 2025.

Uma história que continua

A Usina de Monlevade chega aos 91 anos em um cenário diferente daquele projetado quando a ArcelorMittal anunciou, anos atrás, a intenção de quase dobrar sua capacidade. A expansão foi cancelada, mas a unidade permanece como peça importante da estratégia siderúrgica da companhia no Brasil. O desafio agora é modernizar uma planta histórica, aumentar sua eficiência e manter a competitividade diante das transformações da indústria.

Da pedra fundamental lançada em 1935 aos equipamentos automatizados e às novas práticas ambientais, a história da usina acompanha a própria transformação de João Monlevade.

São 91 anos de altos e baixos, investimentos, mudanças tecnológicas e diferentes gerações de trabalhadores. Uma trajetória que começou com a implantação de uma siderúrgica em uma região ainda em formação e que, nove décadas depois, continua diretamente ligada ao presente e ao futuro do município.