Um acidente ocorrido na última semana, quando dois estudantes caíram de um ônibus do Rota Escolar em movimento no bairro Novo Horizonte, acendeu o debate sobre os desafios enfrentados diariamente no transporte escolar de João Monlevade. O episódio, registrado em vídeo e amplamente compartilhado nas redes sociais, mostra o momento em que a porta traseira do veículo se abre, fazendo com que os dois menores caiam na pista.
Segundo o diretor da empresa responsável pelo serviço, Eduardo Lara, em conversa com o A Notícia, o incidente foi causado pela ação de um dos alunos. Segundo ele, o menor forçou repetidamente a porta traseira com a perna até quebrar o pistão de segurança. “A monitora advertiu o estudante, mas ele insistiu até que a estrutura se partisse. Ao se desequilibrar, puxou outro colega e os dois caíram”, relatou Lara.
Um dos garotos sofreu escoriações leves e foi encaminhado ao Hospital Margarida, onde recebeu atendimento e foi liberado. O outro nada sofreu. Representantes da Enscon acompanharam o caso, e a mãe de um dos envolvidos assistiu à filmagem na sede da empresa, que confirmou o ato de vandalismo.
Desgaste e desabafo
O diretor da Enscon aproveitou o episódio para desabafar sobre a rotina de tensão enfrentada pelos profissionais do transporte escolar. Ele afirma que os casos de vandalismo e desordem são frequentes e que a situação gera forte desgaste emocional na equipe. “Tenho mais gente trabalhando no transporte escolar do que no transporte regular, que é três vezes maior. É um estresse constante. Já pensei várias vezes em abandonar o rota escolar”, disse o dono da Enscon.
Lara também cita a intolerância de alguns pais, que, em vez de colaborarem, acabam agravando os problemas. Em situações mais graves, a empresa aciona a Secretaria Municipal de Educação. “Não tenho que resolver brigas de adolescentes todo dia”, desabafa. Ele relembra ainda o caso de 2023, quando um aluno levou uma bomba para dentro de um ônibus e causou danos a veículos estacionados. “Fui condenado a pagar os prejuízos. Já pensei várias vezes em abandonar o serviço”, afirmou.
Rotina de medo e agressões
A equipe da Enscon também relata episódios de agressividade e desrespeito dentro e fora dos veículos. A auxiliar de tráfego Vera Lúcia de Oliveira e a monitora Adriana da Luz afirmam que lidam diariamente com comportamentos perigosos, como alunos pendurados nas janelas, empurrões e gritos dentro dos ônibus. “Alunos pendurando-se, colocando a cabeça para fora, empurrando o coleguinha, subindo em cima do banco”, disse Vera. Ela conta que já houve um aluno de nove anos que levou bebida alcoólica para dentro do escolar. Os profissionais desabafam: “A gente está tendo que educar o filho dos outros”.
Adriana relata casos de agressões físicas e verbais, tanto de alunos quanto de pais. “Teve mãe que veio me agredir porque eu pedi para ela parar de filmar dentro do ônibus. Depois, ela foi às redes sociais dizendo que eu a agredi”, contou. Segundo os funcionários, muitos responsáveis se recusam a cumprir regras básicas, como o uso da carteirinha de identificação dos filhos, e exigem acompanhamento em tempo real dos veículos por mensagens de celular.
O gerente da empresa, Alex Jordane, reforça que o problema é amplo e inclui desrespeito às normas desde o exemplo dentro de casa. “O próprio pai, às vezes, ensina o filho a desobedecer, a entrar pela porta errada. Está ensinando o filho a não respeitar o serviço”, afirma.
Secretaria de Educação acompanha o caso
A Secretaria de Educação, procurada pela reportagem, informou que mantém acompanhamento constante junto à empresa contratada e que os casos de indisciplina são encaminhados à direção escolar e à equipe psicossocial. O órgão reforçou que o transporte escolar é um direito dos alunos, mas que a colaboração das famílias, orientando seus filhos, é fundamental para garantir a segurança e o respeito dentro dos veículos.
A Secretaria Municipal de Educação também confirmou que foi comunicada imediatamente sobre o acidente. A pasta lamentou o ocorrido e afirmou que segue acompanhando o caso, junto à empresa contratada, reforçando o compromisso com a segurança e o bem-estar dos estudantes.
O órgão confirmou que os alunos forçaram a abertura da porta traseira e que o motorista parou o veículo assim que percebeu a situação. “O dano não ocorreu por falha mecânica durante o movimento normal do ônibus. A Secretaria lamentou o ocorrido e reforçou o compromisso com a segurança e o bem-estar dos estudantes.”, destacou o comunicado.

