(*) Bruna Stefany Alves

Somos 46 monitoras efetivas da Educação Infantil de João Monlevade. Antes de julgar nosso protesto, é preciso entender por que chegamos até ele.

Trabalhamos oito horas por dia, de segunda a sexta, diretamente com quase 20 crianças. Cuidamos, educamos, desenvolvemos atividades, acompanhamos o desenvolvimento infantil, fazemos registros e participamos de projetos. Nos berçários, permanecemos com as crianças durante todo o dia. Nos maternais de período integral, permanecemos com elas durante toda a tarde. Não somos apenas apoio: fazemos parte da engrenagem principal da Educação Infantil.

Em janeiro, entrou em vigor a Lei Federal nº 15.326/2026, que reconhece essa realidade e determina o enquadramento, na carreira do magistério, de profissionais que exercem função docente e atendem aos requisitos legais. Em linguagem simples: a lei reconhece que monitoras exercem trabalho de magistério e devem estar na mesma “gavetinha” da carreira dos professores, com os direitos correspondentes. Não pedimos favor. Cobramos o cumprimento de uma lei.

E nós não começamos protestando. Começamos conversando.

Durante meses, participamos de reuniões com Prefeitura, Secretaria de Educação, Procuradoria, sindicato e vereadores. Apresentamos documentos, discutimos alternativas e até viajamos a Belo Horizonte. A vereadora Maria do Sagrado esteve em reuniões e também nessa caminhada. Mantivemos as portas abertas porque acreditávamos no diálogo. Recebemos a informação de que o projeto avançaria e que, em agosto, o enquadramento seria uma realidade. Também fomos informadas de que o estudo financeiro estava pronto.

Por isso, a frustração foi tão grande quando o impacto financeiro surgiu como principal justificativa. Trouxeram um consultor para apresentar números e dificuldades orçamentárias que, para nós, deveriam ter sido analisados antes de criar expectativas em 46 servidoras.

Não somos contra responsabilidade fiscal. Queremos conhecer os números, o impacto real, as alternativas estudadas e o plano para cumprir a lei. E alternativas foram apresentadas por nós. Até abrimos mão do retroativo e aceitamos propostas que nem sequer eram exigidas pela lei para tentar viabilizar o enquadramento.

Também é importante esclarecer: o reajuste salarial que conquistamos não substitui o enquadramento. São assuntos diferentes. O reajuste veio depois de muita luta e também diante da dificuldade do município em preencher vagas de monitora. Reajuste é valorização salarial; enquadramento é cumprimento da Lei 15.326.

Foi nesse contexto que usamos nariz de palhaço na Câmara. Não foi teatro, mas uma forma simbólica de mostrar como nos sentimos após meses de promessas que não se concretizaram.

Também foi nesse contexto que viramos as costas durante a fala de Maria do Sagrado. Não foi por ela ser mulher, professora ou por sermos contra o diálogo. Foi um protesto político dirigido à representante do governo no Legislativo, porque ela conhecia nossa caminhada e, naquele momento, apresentou o mesmo discurso financeiro da administração.

Foi triste. Somos uma categoria formada por mulheres e sabemos a importância de uma mulher ocupar aquele espaço. Mas também é triste chegar ao ponto de precisar protestar para sermos ouvidas.

Nossa luta não é por privilégio. É por respeito, valorização, transparência e pelo cumprimento de uma lei federal.
Nós dialogamos. Nós esperamos. Nós negociamos. Agora, queremos que a lei seja cumprida.

(*) Bruna Stefany Alves de Jesus é monitora da rede municipal de João Monlevade

@movimentolutamonitoresjm