(*) Érico Porto

Batemos recordes de exportação de minério de ferro e, mesmo com a redução no volume exportado, continuamos sendo referência global. A antiga CVRD tinha tamanha importância estratégica que, durante a Segunda Guerra Mundial, um navio da companhia foi atacado pela Alemanha Nazista por transportar minério itabirano, matéria-prima essencial para reconstruir a Europa.

Diante disso, surge a pergunta: Itabira faz ou não faz parte da história do Brasil? Mesmo assim, em 2025, esta é apenas a segunda vez, segundo dados da imprensa local, que o presidente da República visita nossa cidade. Na minha visão, é muito pouco diante da grandeza da história que Itabira escreveu e continua escrevendo para o país e para o mundo. Mas a culpa é de quem?

A responsabilidade também é nossa, do próprio itabirano, que muitas vezes coloca a vaidade pessoal e a ganância acima do compromisso coletivo. Quando questionados, apontamos o dedo para os políticos que passaram pela administração pública, mas raramente assumimos o nosso papel de exercer política participativa, ativa, de cobrança e de construção conjunta. Talvez isso faça parte de uma herança cultural criada junto com a CVRD. Crescemos como uma sociedade fragmentada, não unida em torno do bem comum.
Itabira organizou-se por divisões sociais nítidas: bairros destinados a engenheiros, técnicos e trabalhadores braçais. O mesmo ocorreu nos clubes recreativos, separados por perfis sociais distintos, como Clubinho, ATIVA, Real, Arfita, Sindicato e Valério Doce. Essa estrutura reforçou a falta de identidade coletiva e de visão compartilhada de futuro. Agora, em 2025, com a visita de um presidente da República e com a aproximação do fim da exploração de minério pela CVRD, hoje Vale, é impossível ignorar o quanto evoluímos pouco enquanto cidade. Faltaram planejamento, infraestrutura e visão de longo prazo.

A cidade que deseja desenvolvimento independente ainda não possui a duplicação do trecho que liga o trevo à BR-381 e tampouco avançou na ligação até Santa Maria de Itabira. Não temos o plano de desenvolvimento econômico robusto, concreto e aprovado pelos vereadores. E nosso potencial turístico, rico, diverso, com história, cultura e natureza únicas, permanece pouco explorado.

A visita presidencial deveria ser o momento de deixarmos a vaidade e o fanatismo ideológico, comportamentos semelhantes aos de torcedores, e falarmos como verdadeiros itabiranos, com franqueza e responsabilidade. É a hora de cobrar dos nossos líderes políticos um diálogo direto, claro e objetivo com o presidente.

Precisamos da duplicação da BR-381! Precisamos que o Ministério da Infraestrutura articule com o Governo do Estado a duplicação da estrada interna entre a BR-381 e Santa Maria de Itabira. Precisamos do plano estruturado de desenvolvimento socioeconômico para o pós-mineração, acompanhado pelo Governo Federal e pela Vale. Precisamos transformar o turismo no vetor econômico que ele tem potencial para ser, gerando emprego, renda e oportunidades reais.

E precisamos, sobretudo, realizar a correção social que permita ao itabirano resgatar o espírito empreendedor. É essencial que a Vale não retire de nós a capacidade de empreender, inovar e construir nosso futuro. Itabira necessita de mais itabiranos que desejem empreender, e não apenas seguir carreira por alguns anos na mineradora.

Que a presença do presidente em Itabira em 2025 não seja apenas registro histórico, mas o ponto de virada que nos faça olhar para nós mesmos e finalmente assumir o protagonismo do futuro que sempre esteve ao nosso alcance, mas que ainda não tivemos coragem de construir.

(*) Érico Porto Vieira é graduado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela UNA e pós-graduado em Logística e Supply Chain pela FGV. Atua na gestão de projetos e estratégias de marketing voltadas ao turismo e ao desenvolvimento regional.