Foi um grande passo quando, em 2024, artistas grafitaram nomes de africanos e afrodescendentes nos muros da Praça do Povo. Naquele ano, em que o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, tornou-se feriado nacional, uma ação coletiva levou para o espaço público um pouco de memória de pessoas que, escravizadas nas fazendas do senhor João Monlevade, ajudaram a fundar a cidade, mas ficaram inviabilizadas.

A iniciativa ganhou materialidade depois que, em uma reunião para discutir programação para marcar a data, eu, na época assessorando o Compir (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial), defendi que seria importante publicizar aqueles nomes, registrados nos inventários de João Monlevade e da mulher dele, Clara Sophia, transcritos em tese da historiadora Martha Rebelatto.

Após algumas trocas de ideias, a Fundação Casa de Cultura encontrou a uma boa solução: grafite na praça construída pelo ex-metalúrgico Leonardo Diniz em sua gestão como prefeito do município (1989-1992) e intitulou “Alatunxê” esse projeto de recuperação histórica – prefiro não usar o termo “reparação”, que, no meu entender, exige muito, muito mais.

A história local já estava marcada por louvações ao engenheiro da França, depois aos homens de Luxemburgo que implantaram por aqui a siderúrgica Belgo-Mineira. Mas, até então, onde estava o lugar da Costa da Mina (nome dado pelos portugueses, no período colonial, à região da África integrada por Benim, Nigéria, Togo e Gana, de onde foram traficados para o Brasil enorme quantidade de africanos)?

Muitos cidadãos e cidadãs, moradores desta cidade ou visitantes, ainda desconhecem do que se trata aqueles nomes grafitados. Esse desconhecimento ficou claro em palestras que ministrei em algumas escolas, a convite, sobre temáticas étnico-raciais. Havia, a princípio, proposta de uma placa com texto explicativo, o que acabou não se concretizando.

Daí ser necessário continuar o trabalho de superar invibilidades históricas. Assim, tenho uma sugestão: outros nomes registrados nos inventários de João e Clara deveriam ser escritos em alguma área da parte externa do contêiner (em forma de vagão ferroviário) instalado no Parque do Areão. Esse equipamento foi parte do projeto multimídia “A Colônia Luxemburguesa”, da cineasta Dominique Santana e, por algum tempo, esteve na Praça do Povo. Bastante simbólico, portanto, migrá-lo do universo simbólico europeu para a memória afro-monlevadense.

Escolas têm levado seus alunos ao Parque do Areão – construído pelo mesmo Leonardo Diniz – para atividades extraclasse. Boa oportunidade, então, para ampliar a educação patrimonial desses jovens com o contato com fios (mínimos, infelizmente) da história oculta de negros construtores da história da cidade.