(*) Breno Eustáquio
Quatro escolas públicas de educação básica em João Monlevade podem ser transformadas em escolas cívico-militares, segundo proposta da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. Um documento enviado à Superintendência Regional de Ensino em Nova Era nesta semana orienta sobre como implantar esse modelo, com prazo até o dia 18 de julho para que tudo esteja pronto, inclusive a escuta da comunidade escolar. Diante da urgência e da importância do tema, é fundamental que esse debate seja feito com seriedade, informação e escuta qualificada.
As instituições envolvidas são a Escola Estadual Manoel Loureiro, a Escola Estadual Luiz Prisco de Braga, a Escola Estadual Dr. Geraldo Parreiras e a Escola Estadual Alberto Pereira Lima. São escolas com longa trajetória de atuação e, em sua maioria, com desempenho significativo nos indicadores oficiais. Praticamente todas elas têm obtido, nos últimos anos, excelentes resultados no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), demonstrando que a gestão pedagógica realizada por profissionais da educação tem surtido efeito.
O destaque merece ser dado à Escola Estadual Manoel Loureiro, referência em toda a região do Médio Piracicaba. A escola teve, nos últimos anos, uma trajetória reconhecida de excelência, inclusive sob a gestão do professor Joel Santos, cujo trabalho o credenciou a assumir a Superintendência Regional de Ensino em Nova Era. É, portanto, ainda mais urgente que essa proposta de transformação em escola cívico-militar seja debatida com profundidade e responsabilidade.
O modelo cívico-militar, embora traga promessas de maior disciplina e segurança, apresenta conflitos significativos quando pensado como solução para os problemas da educação pública. Como doutor em Educação, afirmo que este modelo pode sim ser útil em situações muito específicas, especialmente em escolas que enfrentam graves problemas de violência e desordem. No entanto, sua generalização como política educacional central representa um equívoco conceitual e pedagógico.
Educação é, acima de tudo, um campo do conhecimento e do cuidado humano. A escola é espaço de formação integral, crítica e cidadã. A presença de militares dentro da gestão escolar pode comprometer essa missão, na medida em que substitui práticas pedagógicas e dialogadas por uma lógica hierárquica, disciplinar e autoritária. Disciplinar os corpos sem formar consciências livres é pedagógica e socialmente ineficaz.
João Monlevade precisa refletir sobre isso. O projeto de escola que queremos construir para nossas crianças e adolescentes deve estar alicerçado em princípios democráticos, inclusivos e participativos. A liberdade de expressão, o pensamento crítico e o respeito às diversidades não florescem em ambientes excessivamente militarizados.
A defesa da disciplina e da segurança é legítima. Ninguém quer escolas inseguras ou ambientes caóticos. Mas há formas mais eficazes, humanas e pedagógicas de garantir essas condições, por meio de investimentos em infraestrutura, valorização dos profissionais da educação, escuta ativa dos alunos e fortalecimento da gestão escolar democrática.
Educar é ato de esperança e de confiança no potencial humano. Por isso, é fundamental que a comunidade de João Monlevade esteja atenta, bem informada e disposta a ouvir especialistas em educação, e não apenas gestores de gabinete. O modelo cívico-militar não pode ser implantado com base em pressa, pressão ou propaganda.
Além disso, é preciso reconhecer que há, atualmente, uma intensificação do conservadorismo na cidade, o que acende um alerta importante em setores estratégicos da sociedade. Defender a democracia é um dever coletivo — e tentar transformá-la por meio de modelos autoritários, mesmo com boas intenções, é um caminho perigoso. A educação pública deve continuar sendo conduzida por educadores, e não por policiais. A democracia nas escolas precisa ser defendida com vigor, pois é ali que se formam as bases de uma sociedade consciente, crítica e livre.
(*)Breno Eustáquio da Silva, professor universitário, doutor em Educação

