(*) Alexsandra Mara Felipe

E o bairro Santa Cruz sabe disso! O Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março, costuma vir cheio de campanhas bonitas e discursos bem ensaiados. Mas, para muitas comunidades, essa data não é celebração. É lembrança diária de um direito negado.
Na periferia, a água não é garantida. É incerta. É abrir a torneira sem saber se vai cair um fio ou nada. É reorganizar a vida inteira em função da falta. E, como quase sempre, são as mulheres que carregam esse peso: segurando a casa, cuidando da família e dando conta do que o poder público não resolve.

Falar de água é falar de dignidade. É falar de saúde. É falar de justiça social. E é falar de responsabilidade. Porque não existe concessão ou falta de água sem decisão política envolvida. No bairro Santa Cruz, essa realidade não começou agora. Há mais de dois anos, a comunidade enfrenta a escassez e decidiu não aceitar isso como normal. Junto à Associação dos Moradores do Bairro Santa Cruz (Abasc), a população local vem se organizando, dialogando junto a ArcelorMittal e o DAE na busca por soluções concretas.

Foram várias reuniões tanto na comunidade, quanto na própria Arcelor, que sempre se mostrou aberta à escuta e diálogo. Um trabalho sério, contínuo e coletivo. Não é uma pauta de ocasião. É luta construída no dia a dia, por quem vive o problema de verdade.

Por isso, é importante dizer: quando essa pauta começa a aparecer em outros espaços, ela já tem história. Já tem rosto. Já tem gente que vem segurando essa luta há muito tempo. A reunião na Câmara Municipal pode até ter dado visibilidade à questão, mas não trouxe novidade para quem está na linha de frente. Serviu mais para apresentar, a outros, aquilo que a comunidade já vinha construindo com responsabilidade.

O Santa Cruz não esperou ser chamado. Se organizou! E foi desse processo que, após a participação de quatro mulheres monlevadenses na 5ª Conferência Nacional das Mulheres em Brasília, grupo do qual tenho a honra de fazer parte, nasceu o coletivo Mulheres das Águas e das Matas no Bairro Santa Cruz. Um grupo que fortalece o protagonismo feminino e amplia a luta por direitos no território: um bairro cercado por rios e matas, mas que ainda precisa lutar pelo básico. E são as mulheres que estão à frente dessa transformação.
Mulheres das águas e das matas são aquelas que vivem e defendem os territórios onde nascem as águas, crescem as árvores, se cultivam alimentos e se constrói comunidades. São guardiãs da vida cotidiana e da natureza que sustenta essa vida.

As mulheres das águas são aquelas que lutam por água limpa, saneamento, rios vivos e acesso digno à água em suas casas. As mulheres das matas são aquelas que defendem a terra, as árvores, os alimentos, o ar que respiramos e o equilíbrio da natureza. São mulheres que não aceitam invisibilidade. Que entendem que direito não se negocia, se garante! Assim, o que acontece no bairro Santa Cruz é mais do que uma reivindicação. É um movimento de organização e consciência.

E o Santa Cruz não vai mais aceitar menos que isso. Queremos do Poder Público, da Câmara Municipal e de todos os envolvidos não apenas reunião, mas a solução definitiva em que não coloque a água como favor. Água é direito!

(*) Alexsandra Mara Felipe Fernandes, presidente da Associação dos Moradores do Bairro Santa Cruz (Abasc) e da Associação Monlevadense dos Afrodescentes (Amad)