“Aos vinte e quatro dias do mês de junho de mil oitocentos e vinte e oito, nesta Matriz do Santo Antonio além do Carmo baptizei e pus os Santos Óleos a Constança adulta Nagô escrava da Joana Maria da Cunha. Foi padrinho Domingo escravo da mesma e para constar se fez assunto em que me assinei Vigário João Manoel Guerreiro”. (Certidão de batismo de escravizada transcrita pelo historiador francês Jean Hébrard em artigo de 2003).

“Em 2016, o IPEA analisou 46 milhões de sobrenomes de trabalhadores brasileiros constantes na Relação Anual de Informações Sociais: 87,5% tinham nomes ibéricos; 75% tinham nomes italianos. O resto se distribuía entre sobrenomes germânicos, japoneses, poloneses, coreanos etc. Quase nenhum sobrenome africano. Essa ausência, em uma população de mais de 200 milhões de habitantes, da qual pelo menos a metade tem origens na África, é talvez a maior prova do anonimato da nossa escravidão”.

“A principal explicação para esse silêncio é a prática da imposição de nomes cristãos aos africanos escravizados no Brasil. (…) Como ato final desse processo, lavrava-se, na certidão de batismo, o novo nome do escravizado, geralmente um prenome de santo, tirado da folhinha, sem sobrenome”.

“A escolha desse nome, atribuição de padres, era o elemento-chave do processo de dessocialização e despersonalização do cativo, uma forma de melhor inseri-lo, de maneira subalterna, na sociedade colonial”.

Essas citações são do livro “Os retornados”, de Carlos Fonseca (Ed. Record, 2024), e recorro a elas para falar de sombras que marcam a historiografia sobre a escravização de africanos em solo brasileiro, inclusive em João Monlevade.

A iniciativa a que me entreguei – e sobre a qual já escrevi várias vezes – de levar a espaço público nomes de africanos(as) escravizados(as) e afrodescendentes constantes nos inventários do francês João Monlevade e da mulher dele, Clara Sofia, já é conhecida por algumas pessoas. A proposta resultou no projeto que a Fundação Casa de Cultura denominou “Alatunxê”.

Não é à toa que eu disse algumas vezes não achar adequado classificar como reparação histórica a grafitagem desses nomes na Praça do Povo. É ainda muito pouco porque, infelizmente, o que nos ficou foram esses prenomes, que não deixam de ser uma espécie de camada a ocultar os verdadeiros nomes, no caso daqueles de nações africanas.

De qualquer forma, esse pequeno passo não deixa de ser uma operação para tentar ao menos caminhar um pouco, algo como “escrever com a borracha” (verso de um poema do poeta Marcelo Dolabela (1957-2020)), que uso aqui com sentido alterado: transformar a ferramenta de apagamento – o prenome – em uma pista, ainda que super tênue, frágil.

Esse prenome, usado pela cultura escravocrata para apagar nomes, suas raízes e rizomas, acaba por ser reapropriado como resíduo que nos instiga a buscar mais, a garimpar fontes, cruzar dados, rabiscar aqui e ali e, assim, tornar permanente uma memória apesar do acúmulo de lacunas. É manter viva uma voz, animar o “gogó”, como diz uma letra que escrevi para música de meu parceiro Moisés Catarino, a ser gravada pelo Trio Migrazioni, ítalo-brasileiro.

Com o título de “Borogodó Nagô”, diz a canção: Não tem carimbo nesse cartório; só carimbó / Cai o cachimbo do inventário do seu João / No chão da história a brasa mora é no gogó // Borogodó nagô nagô / Borogodó nagô nagô // Salta pra fora nossa memória pra entender / Dendê do samba põe nossos bambas no seu lugar / Lugar de festa nagô no jogo de caxangá // Borogodó nagô nagô / Borogodó nagô nagô / Borogodó nagô nagô / Borogodó nagô nagô.

(*) Wir Caetano é jornalista, letrista de música/poeta e produtor cultural. Dedica-se também à fotografia. Coordena, com o cantor Toni Julio, o projeto musical Migrações/Migrazioni, de conexão Brasil/Itália.