Aos 91 anos, a Usina de Monlevade carrega uma trajetória marcada por transformação, desafios e desenvolvimento. É dentro dessa história que se insere a carreira de Fabiano Cristeli de Andrade, que começou na unidade como estagiário e hoje ocupa a direção da Usina de Monlevade e da Mina do Andrade.

Em entrevista ao A Notícia, ele fala sobre sua trajetória, a evolução da siderurgia, os desafios da competitividade e a importância da integração entre mina e usina. Também revisita o legado dos pioneiros, destaca o papel das pessoas e projeta o futuro da indústria do aço em Monlevade, diante de temas como inovação, sustentabilidade, descarbonização e transformação digital. Confira:

Você começou como estagiário na Usina de Monlevade. O que representa chegar ao cargo máximo da unidade onde iniciou sua carreira?

Representa uma grande honra e uma grande responsabilidade. A unidade da ArcelorMittal em Monlevade faz parte da minha história profissional e pessoal. Comecei aqui como estagiário, com a oportunidade de aprender diariamente com profissionais que construíram suas carreiras na indústria do aço. Chegar à direção da usina é motivo de muito orgulho e, acima de tudo, reforça meu compromisso de contribuir para o desenvolvimento da empresa, das pessoas e da comunidade com a qual temos uma história construída ao longo de décadas. A minha trajetória é um exemplo da preocupação da empresa em também formar futuras lideranças. Cito também agora o desafio de assumir também a Direção da Mina do Andrade, um diferente negócio, fundamental para a estratégia da empresa.

O que mudou na Usina e o que mudou em você desde aquele primeiro dia até hoje?

A Usina evoluiu muito em tecnologia, automação, segurança e gestão ambiental. Hoje temos processos mais modernos, maior controle operacional e um comprometimento permanente com a segurança e o bem-estar das pessoas que trabalham conosco. Eu também mudei. Ganhei experiência, maturidade e uma compreensão mais ampla dos desafios do negócio. Mas algumas coisas permanecem iguais: a vontade de aprender, o respeito pelas pessoas e a paixão pela indústria do aço.

Qual foi o momento mais importante da sua trajetória até chegar à direção-geral?

É difícil destacar apenas um momento, porque a carreira é construída por muitas experiências. Mas acredito que assumir posições de liderança e ter a oportunidade de crescer profissionalmente dentro da ArcelorMittal foram marcos importantes. Cada um desses momentos teve algo de especial para mim. Eles permitiram compreender a empresa de forma mais ampla, conhecer melhor as pessoas e desenvolver a capacidade de tomar decisões pensando no longo prazo e no interesse coletivo.

“Chegar à direção da usina é motivo de muito orgulho e, acima de tudo, reforça meu compromisso de contribuir para o desenvolvimento da empresa, das pessoas e da comunidade (…)”

Para quem não conhece uma siderúrgica, o que acontece dentro da Usina de Monlevade desde a chegada do minério até a produção do fio-máquina?

De forma simplificada, o minério de ferro que vem da nossa Mina do Andrade passa por uma série de processos industriais até se transformar em aço. O minério e outras matérias-primas passam pela redução no alto-forno, o gusa produzido no alto-forno segue para a aciaria, onde o aço é produzido, refinado e solidificado em forma de tarugos. Depois, esses tarugos seguem para os laminadores, onde são transformados em fio-máquina. Esse é o principal produto da Usina de Monlevade, produzido de acordo com especificações e requisitos de qualidade para atender às necessidades de diferentes mercados.

O que é o fio-máquina e em quais produtos do nosso cotidiano podemos encontrar o aço produzido em Monlevade?

O fio-máquina é um produto de aço longo fornecido em bobinas e que serve como matéria-prima para diversos segmentos industriais. O aço produzido em Monlevade é utilizado na fabricação de itens como pneus, parafusos, pregos, molas, cabos de aço, componentes automotivos, estruturas para construção civil e diversos equipamentos industriais. Um exemplo que faz parte das nossas casas são as esponjas de lã de aço, mostrando como um produto fabricado em Monlevade pode chegar a aplicações muito próximas das pessoas.

Para quais mercados esse aço é vendido e o que faz o produto de Monlevade ser competitivo?

Atendemos, principalmente, os mercados automotivo, industrial e agropecuário, tanto no Brasil quanto em outros países. Nossa competitividade está baseada em um conjunto de fatores, que inclui a qualidade do minério de ferro da nossa Mina do Andrade, a qualidade do fio-máquina, a confiabilidade dos nossos processos, a tecnologia, a capacidade de desenvolver soluções específicas para os clientes e, principalmente, as pessoas que fazem tudo isso acontecer. Investimos na formação, na qualificação e no desenvolvimento contínuo das nossas equipes, desde a entrada de jovens por programas como estágio e aprendizagem até o aperfeiçoamento de profissionais experientes. Esse conjunto de fatores nos permite atender às diferentes necessidades dos clientes e manter a competitividade nos mercados em que atuamos.

Qual é o diferencial do aço produzido aqui em termos de qualidade e tecnologia?

Nosso diferencial está na produção de aços especiais com características e requisitos de qualidade específicos para diferentes aplicações e mercados. Investimos continuamente em tecnologia, aprimoramento dos processos, desenvolvimento de novos produtos e na construção de relações de longo prazo com nossos clientes. Esse trabalho nos permite desenvolver soluções cada vez mais alinhadas às necessidades de cada aplicação.

Qual é a importância da Mina do Andrade para a operação da Usina de Monlevade?

A Mina do Andrade faz parte da história da nossa região, assim como a Usina de Monlevade. As duas operações estão fisicamente distantes apenas 11 km, mas fazem parte do mesmo negócio. O fio-máquina, produto final da Usina de Monlevade, tem uma etapa importante de sua produção na Mina do Andrade, onde o minério é extraído e beneficiado. Ter uma operação integrada, do minério ao aço, é um importante fator de competitividade, contribuindo para a eficiência e a qualidade dos processos. Além da importância para a operação, a Mina do Andrade e a Usina de Monlevade têm um papel relevante para João Monlevade e Bela Vista de Minas, contribuindo para a economia e para o desenvolvimento das comunidades onde estão inseridas.

“Ter uma operação integrada, do minério ao aço, é um importante fator de competitividade (…)”

Hoje, qual é o principal desafio para manter a competitividade da produção de aço em Monlevade?

O desafio é permanecer competitivo em um mercado global, dinâmico e cada vez mais exigente. Isso exige ganhos contínuos de produtividade, inovação tecnológica, eficiência operacional, gestão responsável dos recursos e desenvolvimento das pessoas. Continuamos em busca da evolução da performance e confiabilidade, sem abrir mão da segurança das pessoas, da qualidade e da responsabilidade ambiental.

Qual é a importância da Usina de Monlevade dentro da ArcelorMittal mundial?

Monlevade possui uma história de décadas na produção de aço e tem papel relevante dentro da ArcelorMittal pela especialização na produção de fio-máquina, pela experiência de suas equipes e pela capacidade de atender diferentes mercados e aplicações. A combinação de conhecimento, tecnologia e experiência construída ao longo dos anos fortalece a posição da unidade dentro do Grupo ArcelorMittal.

O que diferencia Monlevade das demais unidades do grupo?

Justamente essa vocação histórica da produção de aços especiais, que é um mercado em que só a Usina de Monlevade atua dentre as unidades do grupo no Brasil.

A nova escala 4×4 entrou em vigor recentemente. O que mudou, na sua visão?

A mudança representa uma evolução importante nas relações de trabalho. Ainda estamos em fase de adaptação, mas temos uma expectativa positiva em relação a essa mudança. O mais importante é que essa construção foi baseada no diálogo e na busca por soluções equilibradas para as pessoas e para o negócio.

Como a empresa pretende medir os resultados dessa mudança de jornada?

Vamos acompanhar diversos indicadores relacionados à segurança, saúde, qualidade, engajamento e satisfação dos empregados. O objetivo dessas medições é acompanhar os resultados e identificar oportunidades de aprimoramento contínuo, sempre em conjunto com os empregados.

A Usina foi criada em 1935, em uma época de enormes dificuldades tecnológicas e logísticas. Como você imagina o desafio enfrentado pelos pioneiros da siderurgia em Monlevade?

Imagino um desafio gigantesco. Eles precisaram superar limitações de infraestrutura, tecnologia e acesso a recursos para construir um empreendimento transformador para a região e para o país. Imagine construir uma usina e, junto dela, toda uma estrutura urbana que não existia nas proximidades, como foi a Vila Operária, com casas, escolas, hospital e clubes. O legado deixado por esses pioneiros está aí: uma Usina que se tornou referência e uma cidade que nasceu e se desenvolveu a partir dessa história.

O que você gostaria de perguntar a Louis Ensch se pudesse conversar com ele hoje?

Eu perguntaria como ele conseguiu enxergar oportunidades tão grandes em um cenário tão desafiador. Também gostaria de ouvir sua visão sobre liderança, perseverança e empreendedorismo, temas que continuam atuais e importantes para quem precisa tomar decisões e construir o futuro.

“Imagine construir uma usina e, junto dela, toda uma estrutura urbana que não existia nas proximidades, como foi a Vila Operária, com casas, escolas, hospital e clubes.”

Olhando para os grandes engenheiros e dirigentes que passaram pela Usina, o que eles ensinaram às gerações atuais?

Eles ensinaram que bons resultados são construídos com conhecimento técnico, disciplina, visão estratégica, trabalho em equipe e respeito pelas pessoas. Também deixaram como legado a busca permanente pela inovação e pela melhoria contínua, princípios que seguem guiando nossa atuação.

A Usina caminha para completar 100 anos. Como você imagina Monlevade e a siderurgia local em 2035?

Imagino uma indústria do aço ainda mais competitiva, sustentável, segura e conectada às necessidades do mercado e da sociedade. Vejo uma empresa cada vez mais preparada para os desafios da transição energética, da descarbonização e da transformação digital, mantendo sua relevância econômica e social para João Monlevade e toda a região.

Olhando para a sua trajetória, que conselho daria hoje àquele jovem Fabiano que estava começando? E para outros jovens que sonham em trabalhar na Usina?

Diria para nunca parar de aprender, acreditar no próprio potencial e valorizar as oportunidades que surgem ao longo do caminho. A carreira é construída com dedicação, humildade e persistência. Aos jovens, deixo a mensagem de que o conhecimento, a curiosidade e a disposição para aprender e fazer a diferença continuam sendo caminhos importantes para construir uma trajetória profissional sólida e significativa.

Que mensagem você deixa para os trabalhadores e a comunidade de Monlevade?

Minha mensagem é de agradecimento. A todos que trabalham e trabalharam na Usina de Monlevade e na Mina do Andrade, pelo comprometimento diário e por tudo o que ajudaram a construir ao longo dessa história. À comunidade, agradeço pela parceria e pela relação construída ao longo de tantas décadas. Essa relação também se traduz em iniciativas que apoiamos na região, por meio da Fundação ArcelorMittal, nas áreas de educação, cultura, esporte e promoção social. Temos orgulho de fazer parte da história de João Monlevade e seguimos comprometidos em contribuir para o desenvolvimento da cidade e da região, com responsabilidade e pensando nas futuras gerações.