“A mineração é apenas ponto de partida. Ela não pode ser destino final.” A frase do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Gabriel Quintão, resume uma das principais transformações em curso em São Gonçalo do Rio Abaixo.
Durante duas décadas, menos da metade dos 63 anos de história recente, o município se transformou numa potência após o início da mineração. São Gonçalo deixou de ser apenas uma cidade pequena e acolhedora às margens da BR-381, para se tornar um polo de desenvolvimento econômico, atraindo indústrias e gerando empregos.
Hoje, construiu sua força econômica e não nega a importância da atividade mineradora, cujos recursos ajudaram a financiar boa parte de sua estrutura atual. Agora, a cidade trabalha para transformar a riqueza mineral em algo que permaneça depois dela.
Esse movimento foi visto de perto ontem (27), durante uma visita promovida pela Prefeitura, que levou jornalistas aos distritos industriais, onde estão empresas instaladas ou em processo de implantação no município. O que se viu foi mais do que uma política de atração, mas uma completa estrutura para fazer negócios acontecerem.
A estratégia reúne o Prospera+, programa de diversificação econômica, e a iniciativa “Novas Áreas, Novas Oportunidades”. Os dois ampliam a oferta de espaços para empreendimentos e reúne mecanismos de crédito, qualificação, apoio ao empreendedor, compras públicas e formação de mão de obra.
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Gabriel Quintão, 14 empresas iniciaram processos de implantação em São Gonçalo entre janeiro e agosto de 2026. “A cidade descobriu sua vocação e atrai negócios ligados a alimentos, logística, indústria química, transporte, distribuição, manutenção de máquinas e equipamentos, entre outros setores”, afirma. Com isso, a cidade começa a construir uma economia em que o minério deixa de ser a única grande referência.
Pronta para investidores
Um dos maiores obstáculos para a instalação de empresas é a falta de áreas adequadas. São Gonçalo tenta transformar esse problema em oportunidade. Além dos distritos industriais já existentes, o município trabalha na implantação de novas áreas, inclusive, em regiões próximas à BR-381, através do Banco de Áreas. A ferramenta reúne terrenos e imóveis públicos e privados com potencial para receber investimentos.
Conforme a Prefeitura, o funcionamento é relativamente simples. Proprietários de áreas disponíveis podem cadastrá-las junto à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Os imóveis passam por avaliação ambiental e urbanística e, se considerados adequados, entram no banco. O município cria uma ponte entre quem tem espaço e quem tem interesse em investir.
Crédito
Diversificar não significa apenas trazer grandes fábricas. É também permitir que quem já empreende em São Gonçalo possa crescer. Essa é a proposta do “Crescer Sem Juros”, programa destinado a micro e pequenas empresas, empresas de pequeno porte, empreendedores e produtores rurais. Nele a Prefeitura assume os juros do financiamento, enquanto o empreendedor paga as parcelas referentes ao valor efetivamente tomado. O crédito pode ser usado em investimentos produtivos, como máquinas, equipamentos, obras, reformas e adequações dos espaços de trabalho.
Em janeiro deste ano, o programa ultrapassou R$3 milhões em crédito concedido, após uma nova rodada de R$1,2 milhão para 11 beneficiários. Para Gabriel Quintão, a importância da iniciativa está justamente em transformar crédito em atividade econômica. “É uma política pública que estimula o investimento produtivo, fortalece quem empreende e contribui diretamente para a geração de emprego e renda no município”, afirma.
Bolsa Trabalho
O programa Bolsa Trabalho foi desenhado para estimular emprego e renda, especialmente, entre jovens e trabalhadores em processo de formação. A Prefeitura subsidia uma bolsa equivalente a um salário-mínimo por até quatro meses durante o treinamento dentro de empresas parceiras. Com a medida, o trabalhador pode conquistar experiência e entrar no mercado. Para a empresa, o período inicial de formação tem custo reduzido, já que a Prefeitura assume a bolsa durante a fase de treinamento.
Outra iniciativa, o Programa Qualifica, completa esse eixo, com formação realizada em parceria com Sebrae, Senai, Senar e Senac. A Prefeitura também fortalece a presença do Senai e da unidade tecnológica do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) no município. Elas aproximam a formação profissional, tecnologia e necessidades das empresas.
A Casa do Empreendedor integra a mesma estrutura. O espaço oferece orientação e capacitação para quem pretende abrir ou ampliar uma empresa. Já o Programa Compras Governamentais prepara empresários locais para fornecer produtos e serviços ao poder público. A ideia é fazer com que o poder de compra da Prefeitura também funcione como instrumento de desenvolvimento econômico. O município também prepara o “Centro de Aceleração de Negócios” para receber empreendimentos no ramo alimentício”.
Alimentos ganham espaço
Talvez o exemplo mais emblemático dessa transformação seja a Fralía Cacau Brasil. Há mais de duas décadas em São Gonçalo, a empresa atua no beneficiamento do cacau e transforma a matéria-prima em produtos industriais, como manteiga e pó de cacau. São 23 tipos de pó de cacau, segundo informações apresentadas durante a visita.
Parte da produção atende o mercado nacional e outra chega ao exterior, incluindo Argentina, Equador, Chile e países africanos. A empresa compra matéria-prima inclusive no Norte de Minas e pretende ampliar sua capacidade com um moderno laboratório. O novo investimento está estimado em R$22 milhões e deverá triplicar o beneficiamento.
Outro exemplo é o Frigohiper, de João Monlevade, que será instalado no Distrito 4. Ele prevê investimento estimado em R$21 milhões, ocupação de uma área de aproximadamente 23 mil metros quadrados e atuação em diferentes etapas da cadeia da carne. A Prefeitura informa que o empreendimento deverá gerar inicialmente 30 empregos diretos, com compromisso de que 80% das vagas sejam destinadas à mão de obra local. A unidade terá abate e processamento de bovinos, bubalinos e suínos, além de fabricação de produtos cárneos, industrialização e empacotamento.
Outro investimento é o da Tia Eliana, que está chegando ao Distrito Industrial II com previsão de 60 empregos. A empresa ocupará uma área de 20 mil metros quadrados e pretende ampliar sua produção de salgados, pão de queijo e massas congeladas. A capacidade de produção é de 16 toneladas por dia. Segundo Quintão, a chegada da Tia Eliana fortalece a cadeia produtiva de alimentos e cria oportunidades não apenas dentro da fábrica, mas também para fornecedores e parceiros locais.
Indústria, educação e desenvolvimento
A Sotrec também amplia sua presença em São Gonçalo. A empresa, que anteriormente tinha uma atuação mais próxima de um centro de distribuição, passa a incorporar atividades industriais, incluindo produção e manutenção de peças. Em parceria com o Senai, prepara ainda cursos técnicos em manutenção de máquinas e equipamentos pesados e automação.
A Prefeitura também relaciona o desenvolvimento econômico aos investimentos em educação. Cerca de 80% dos alunos da rede municipal estão no ensino em tempo integral, com atividades que incluem arte, judô, balé, educação financeira e educação ambiental, já na grade escolar.
O plano de desenvolvimento sustentável anunciado recentemente pela Prefeitura e pela Vale prevê R$53 milhões em investimentos entre 2026 e 2028, incluindo ações de inovação, educação, desenvolvimento econômico e a implantação do Centro de Aceleração de Negócios. É mais uma demonstração de que a discussão já não está restrita aos distritos industriais, mas relacionada ao modelo de cidade que São Gonçalo quer ser.


