O bairro Santa Cruz é um lugar privilegiado pela natureza. Moramos num local cercado por nascentes, córregos e áreas verdes, um patrimônio ambiental que deveria ser motivo de orgulho. No entanto, há anos convivemos com uma realidade que não combina com essa riqueza: a poeira que invade nossas casas, cobre os quintais, compromete o lazer das crianças e desperta uma preocupação constante com a saúde de quem aqui vive.

Sabemos da importância da indústria para João Monlevade e não somos contra o desenvolvimento, fundamental para a geração de empregos e para a economia local. Mas o desenvolvimento só faz sentido quando vem acompanhado de responsabilidade ambiental e respeito às comunidades diretamente afetadas.

Foi com esse espírito que a Associação Por Amor (ABASC) e o coletivo Mulheres das Águas e das Matas participaram de uma reunião com representantes de empresas, do poder público e de órgãos ambientais e de saúde de Monlevade. Antes de recorrer ao Ministério Público, escolhemos o caminho do diálogo, acreditando que a construção conjunta de soluções é sempre a melhor alternativa.

Reconhecemos que a ArcelorMittal, maior siderúrgica da região, mantém um canal de diálogo com a comunidade, e isso merece ser valorizado. Mas diálogo sem resultados concretos não resolve problemas. Nossa disposição para conversar nunca pode ser confundida com conformismo.

Durante a reunião, ouvimos apresentações dos representantes das empresas sobre tecnologias de monitoramento da qualidade do ar. São informações importantes, mas nossa resposta foi simples: nós entendemos da realidade que vivemos todos os dias. Entendemos da poeira que limpamos diariamente, da roupa que volta suja do varal, das janelas que permanecem fechadas para nos proteger do pó e da preocupação permanente com a saúde das nossas famílias, sobretudo, as crianças e os idosos.

Também, no encontro, apresentamos reivindicações objetivas. Solicitamos a pavimentação da área utilizada para estacionamento e circulação de caminhões, reduzindo um dos principais focos de suspensão de poeira, além da criação de um novo viradouro para esses veículos. Denunciamos ainda a situação da quadra esportiva do bairro, onde crianças e adolescentes precisam varrer o piso antes de praticar esportes, o que é um absurdo. Isso não é apenas um transtorno, pois representa risco à saúde e demonstra como a poluição interfere na vida cotidiana.

Defendemos ainda que a arborização, investimentos sociais e projetos culturais priorizem as comunidades que convivem diariamente com os impactos ambientais. Da mesma forma, entendemos que as empresas precisam assumir um compromisso permanente de apoio às iniciativas sociais, culturais e ambientais desenvolvidas no Santa Cruz, fortalecendo ações que promovem cidadania, educação e qualidade de vida.

Outro encaminhamento importante foi solicitar à Secretaria Municipal de Saúde a realização de um levantamento epidemiológico para identificar a incidência de doenças respiratórias e outros agravos na comunidade. Políticas públicas eficazes precisam ser construídas com base em evidências e na realidade vivida pelos moradores.

Nossa luta não é por privilégios. É pelo cumprimento de direitos garantidos pela Constituição: o direito ao ar limpo, à preservação da água, ao lazer, à saúde e a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. O direito de abrir a janela de casa sem que a poeira entre antes do vento.

Não existe desenvolvimento sustentável quando uma comunidade inteira precisa adaptar sua rotina para conviver com a poluição. Também não existe justiça ambiental quando os benefícios econômicos são compartilhados, mas os impactos permanecem concentrados sobre quem mora ao lado dos empreendimentos.

Continuaremos apostando no diálogo, mas esperamos que ele produza mudanças concretas, o quanto antes. Afinal, o tempo das justificativas já passou. Agora é tempo de responsabilidade, de investimentos e de soluções. Quem vive no Santa Cruz não quer impedir o crescimento da cidade. Quer apenas que esse crescimento respeite as pessoas que há décadas cuidam deste território e têm o direito de viver com dignidade e com justiça ambiental.

(*) Alexsandra Mara Felipe é diretora da Associação do bairro Santa Cruz Por Amor (ABASC)