(*) Elivânia Felicia Braz
Finalizando este mês de março, mês de celebração das mulheres, uma reflexão me traz inquietude: nosso Brasil registra índices alarmantes de violência contra a mulher, com números persistentes e crescentes de feminicídio, mas, por outro lado, testemunhou e testemunha a consistente, mas ainda pouco valorizada, presença feminina nos espaços de produção de conhecimento, poder e decisão.
E eu quero usar este espaço para reforçar a importância da presença feminina, para mostrar que, mesmo tentando nos apagar, já mostramos nossa capacidade intelectual, nossa força, dedicação e capacidade para ocuparmos os mais diversos espaços e funções. E essa demonstração é resultado de um processo histórico, construído com resistência.
Na ciência brasileira, mulheres vêm ocupando posições de liderança e protagonismo. Em 2026, Tatiana Sampaio, é uma cientista brasileira de destaque, reconhecida pelo desenvolvimento de uma molécula promissora na regeneração de lesões medulares.
Pesquisadoras em diversas áreas têm sido reconhecidas nacional e internacionalmente, demonstrando que a produção científica não apenas inclui mulheres: ela depende delas.
Na educação, as mulheres são maioria nas universidades e seguem como base estruturante da formação intelectual do país. Na política e nos espaços institucionais, ainda que sub-representadas, elas ampliam sua presença de forma consistente, ocupando cargos estratégicos e influenciando decisões que impactam diretamente a sociedade. Assim, não se trata de concessão. Trata-se de competência.
Em nossa cidade, não é diferente. João Monlevade possui mulheres que constroem, diariamente, uma história de protagonismo e de transformação social, que não pode e não deve ser ignorada.
E, para não cometer injustiças, vou citar apenas uma: Marina Eugênia de Souza, a “Dona Preta”, com uma longa história de engajamento nos movimentos sociais, foi a fundadora, em 1982, da Associação das Lavadeiras de João Monlevade, hoje, Associação das Profissionais Domésticas e Lavadeiras.
Em 1988, tornou-se a primeira vereadora negra e doméstica no país, tendo, em seu mandato, se empenhado na criação do Conselho da Mulher e da Lavanderia Comunitária. Sua eleição rompeu não apenas uma barreira política, mas duas estruturas historicamente excludentes: o racismo e o sexismo. Sua trajetória é símbolo de resistência e marco de representatividade.
Estamos fortemente presentes no empreendedorismo, gerando trabalho, renda e movimentando a economia local. No associativismo, fortalecendo redes e impulsionando o crescimento feminino no ambiente empresarial, nos espaços jurídicos, nos movimentos sociais, reforçando o papel essencial da organização coletiva na promoção de direitos.
Nas áreas da educação, da saúde e assistência social, na política, infelizmente, ainda com pouca representatividade, mas sempre com destaque e protagonismo.
Diante desse cenário, há uma constatação que não admite mais relativização: as mulheres já demonstraram, de forma inequívoca, sua capacidade e competência técnica, seu compromisso e sua força de trabalho.
A discussão, portanto, não é mais sobre capacidade. É sobre respeito. Respeito às escolhas individuais, respeito às trajetórias construídas, respeito à dignidade humana.
A história das mulheres é marcada por enfrentamentos contínuos. Direitos que hoje parecem evidentes foram conquistados com luta, persistência e, muitas vezes, com sacrifícios invisíveis.
E essa trajetória não pode ser interrompida, muito menos deslegitimada.
É plenamente possível e necessário que as mulheres continuem ocupando os espaços que escolherem, sem renúncia de identidade, sem imposições e sem violência.
Viver com liberdade e segurança não é privilégio. É direito fundamental! Uma sociedade que não respeita suas mulheres compromete o próprio futuro.
E uma sociedade que reconhece, valoriza e garante esse respeito não apenas evolui, ela se transforma de forma irreversível.
Porque quando uma mulher avança, não há retrocesso possível. Sigamos!
(*) Elivânia Felícia Braz é advogada, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da 75ª Subseção da OAB/MG, 1ª Vice-Presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da OAB/MG e presidente da AMA – Associação Mulheres em Ação de João Monlevade.

