(*) Marcos Martino
Ela estava muito feliz. Tinha terminado um relacionamento de 9 anos. No princípio, ficou arrasada, já estava um pouco acima do peso e um tanto de gordura ruim em diversas partes do corpo. Ela era bonita, mas queria mais. Era advogada, bem-sucedida, independente, tinha um apartamento bom, carro novo, não podia reclamar da vida.
Mas sabe como é né? Ela queria mais. Prometeu a si própria que iria perder 15kg e chapar a barriga. Era disciplinada. Consultou uma nutricionista, entrou para uma academia e se aplicou totalmente no objetivo. No começo não foi fácil. Muitas dores pelo corpo, cansaço. Mas foi se acostumando. Ficou irritada no primeiro mês, pois embora estivesse se aplicando, na balança o peso continuava igual. O instrutor falou que era normal, pois massa flácida estava virando massa magra e que em breve o peso cairia.
Dito e feito. Ela sentiu que tava tudo ficando mais firme. Ela resolveu intensificar os exercícios, pois era doida pra ter a barriga chapada. E dá-lhe abdominais de todo jeito até que alcançou o objetivo. Ela ficava horas se curtindo no espelho, estava apaixonada pela própria imagem. Agora, só precisava dar manutenção. Mas começou a ficar preocupada com uma coisa: como terminou um relacionamento de 9 anos, estava meio sem prática nas paqueras, era tímida e tava faltando homem no mercado.
Ficou um pouco desconcertada, pois algumas meninas na academia a olhavam de maneira lasciva. Mas não! Ela era hétero convicta. Mas como encontrar um homem do seu nível? Ela saía, ia a barzinhos, frequentava as rodas sociais, mas só tinha meninotes cheios de testosterona, mas nada na cabeça. Ela até chegou a dar uns amassos, mas não! Não a satisfazia!
Até que certo dia ela resolveu correr pela manhã. Pegou seu celular, preparou seu playlist com mpb e saiu pela pista de caminhada. Ela gostava de correr bem cedo, quando o sol nascia. Adorava aquele tom dourado meio rosa pela manhã. Tinha uma música do Djavan que ela adorava ouvir nesses momentos. “Se encantou, pela cor lilás”. Ela adorava o lilás. Tava correndo distraída quando percebeu que a uns 500 metros vinha uma pessoa correndo também. E essa pessoa vinha se aproximando. 300 metros de distância…150. Até que estava ao alcance da sua visão.
Era um rapaz alto, muito bonito, musculoso e em forma. Quando se aproximou mesmo para ultrapassá-la, ela abriu caminho, mas ele emparelhou e perguntou se ela sabia das horas. Ela olhou no celular: “6 da manhã”. Ele abriu um sorriso e foi aí que ela percebeu: que homem lindo! Ele perguntou de onde ela era, disse que amava correr àquela hora, que nunca tinha à visto na área. Ela contou sua história, que tinha se separado, que estava tentando se refazer. Ele falou que também tinha saído de um relacionamento e no momento estava sozinho.
Ela lembrou da sincronicidade de Jung, lida naquela semana, sobre as coincidências incríveis da vida. Romantizou, falou que coincidências acontecem. Correram juntos por alguns metros, quando em certo momento ele falou que gostaria de ter o zap dela e pediu o celular emprestado pra adicionar seu número de contato.
Ela ficou hipnotizada pela beleza dele e começou a fantasiar. Sabe como são as mulheres, né? Ela pegou o celular e passou a ele. Ele pegou o aparelho e saiu correndo. Apertou o passo e ela ficou ali sem entender nada. Ela correu alguns metros sem encontrar ninguém e ele desapareceu.
Desapontada, ela foi à polícia registrar a ocorrência. Foi advertida que, infelizmente, na pista não tinha nenhuma câmera. E pediram a descrição do assaltante. E ela lascou: moreno alto, bonito e sensual…
(*)Marcos Martino é alvinopolense, ativista cultural e compositor

